Metropolização em Debate

Discutir cidades requer mais nuances

Recentemente, enquanto buscava novidades no mercado imobiliário, acabei me deparando com uma reportagem do Valor Econômico publicada em janeiro. Intitulado “Arquitetos querem mais do que seus ‘carimbos’ nos prédios”, o texto consulta arquitetos e figuras ligadas à incorporação, sendo oportuno para um coletivo que, como o nosso, trata da mobilidade no espaço que pode ter sido ou estar sendo transformado pelas figuras entrevistadas. De partida, cito a fala de Igor Melro, diretor comercial da Porte Engenharia e Urbanismo, que tem atuação relevante no segmento de alto padrão do Tatuapé e do Jardim Anália Franco.

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As cortinas transparentes do teatro da teimosia

Na semana que se passou, tivemos dois pequenos dramas de classe média no microscópico círculo que mescla urbanismo, política e cinismo — um círculo onde o comportamento NIMBY (Not In My Backyard) encontra abrigo em vocabulário progressista: moradores que se opõem a projetos de adensamento em suas vizinhanças, mesmo reconhecendo a necessidade deles em outros locais. Primeiro, Nabil Bonduki continuou sua epopeia em torno das esvaziadas galerias comerciais da rua Augusta; segundo, uma série de figuras, incluindo nomes como Miguel Falabella e a revista Veja São Paulo, choraram por um teatro que não havia sido demolido, com base numa dramatização renderizada com auxílio de inteligência artificial.

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A cidade não cabe no sobrado

Introdução No final de outubro, Vicente Vilardaga, em sua coluna “Andanças na metrópole”, publicada pela Folha de S.Paulo, escreveu artigo intitulado “Os problemas causados pela verticalização desenfreada em São Paulo”. Infelizmente, aprendi que, no ativismo, não basta defender um ideal, é preciso defendê-lo de infinitas maneiras e infinitas vezes. Nada do que direi a seguir é uma novidade, mas talvez apresente uma roupagem diferente, capaz de contribuir positivamente para um debate que, com o perdão da franqueza, tem se perdido na romantização de paisagens bastante específicas.

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Paralisia e a cidade contra a cidade

Contextualização Nos últimos meses — ou seriam anos? —, tenho observado padrões preocupantes e saturado meus companheiros deste Coletivo com mais ou menos os mesmos assuntos, ainda que a roupagem pareça diferente num ou noutro momento. Como todo trabalho voluntário, o que faço aqui acaba entrelaçado com a minha vida, não se resumindo meramente a trabalho (de campo, de produção textual, fora momentos torturantes à frente do Instagram). Na maior parte do tempo, eu também lido com decisões difíceis, às vezes, paralisantes.

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Raça, urbanismo e o tabu brasileiro

Introdução Nos Estados Unidos, é comum que o debate urbano associe nimbysmo e raça: redlining, white flight, zoneamento excludente. Textos no New York Times (aqui e aqui, por exemplo) ou The Atlantic (aqui e aqui, por exemplo) tratam abertamente de como a segregação urbana e a racial se entrelaçam. No Brasil, essa associação permanece um tabu nas escassas discussões sobre cidades. Preferimos falar em “preservação do verde”, “patrimônio” e “modos de vida”, contudo, o resultado é o mesmo: exclusão de populações pobres e, não raramente, racializadas, dos centros urbanos.

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Análise do fluxo de pedestres no Terminal Central de Mauá

Durante recente visita ao município, tive a oportunidade de analisar o movimento no terminal e percorrer diversas vezes o trajeto em direção ao lado B. Observei que a maioria dos usuários prefere descer pela plataforma C — o caminho mais direto — e, em seguida, atravessam diagonalmente em direção às plataformas F, G e H, onde há uma abertura no guarda-corpo. Vale destacar que o acesso oficialmente indicado seria pela plataforma A, que de fato oferece maior segurança por dispensar travessias.

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Criatividade defensiva: como a mobilidade marginalizada me fez um escritor melhor

Se você me vir xingando a 574J-10, já sabe: a disciplina de Bases Matemáticas voltou à minha rotina universitária. E, junto dela, voltou também o roteiro tragicômico que une a Vila Formosa, na Zona Leste paulistana, à avenida Kennedy, em São Bernardo do Campo, costurado por linhas que não se encontram, corredores que nem sempre existem e escolhas de transporte dignas de um teste de resistência. Legenda: Avenida Kennedy às 22h47 de 10 de março de 2025: ciclovia/pista de caminhada se destaca e oferece “tapete vermelho” em meio à arborização (à direita, está o Parque Raphael Lazzuri) Sim, voltarei a cursar a disciplina que persiste como um karma do meu ciclo acadêmico — e, como não poderia deixar de ser, isso envolve voltar a atravessar a metrópole de leste a sudeste com a leveza de um saco de cimento.

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As marginais de São Paulo e a negação da cidade

A Marginal Tietê não é somente uma rodovia. É uma sentença. Um rio de veículos ladeando um rio morto. Um dos piores cartões de visita urbanos do mundo — e, ainda assim, aceito. Aceito como destino, como funcionalidade, como cicatriz convertida em moldura. Entre o barulho incessante, o cheiro de diesel e a paisagem de galpões e concreto, o paulistano passa e repassa, todos os dias, pela prova viva de que sua cidade parece ter desistido.

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O “bosque” e a cidade: entre a árvore e o erário

Prólogo No dia 25 de maio, moradores da Zona Oeste de São Paulo organizaram um protesto contra a derrubada do chamado Bosque dos Salesianos. A área verde, localizada no Alto da Lapa, pertence à iniciativa privada e foi vendida à incorporadora Tegra para a construção de um condomínio residencial. A Justiça chegou a suspender as obras, mas a decisão foi revertida, e agora basta a assinatura de um secretário municipal para que a construção seja liberada.

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A torre, o chilique e o colapso: elites, escassez e a farsa do equilíbrio urbano

Legenda: Anúncio de novo empreendimento imobiliário no Instagram (acima, em destaque, grifos do autor) e comentários negativos, um deles embalado na hashtag #ChegaDePrédios. Clique na imagem para abri-la e ampliá-la Começo provocando: ao contrário da desgastada linha argumentativa que, mais uma vez, ressurge na forma de crítica a um empreendimento imobiliário que não surpreende pela sua proposta ou localização, a cidade tem estrutura. O que ela não comporta é estupidez.

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Esquerda vive dilemas com símbolos das elites passadas

O texto sobre o Edifício Guarany, ao mencionar a obra de Di Cavalcanti no Edifício Triângulo, abre uma brecha para uma discussão mais objetiva em torno da contradição entre preservação e acúmulo de capital cristalizado no passado. Tomemos, mais uma vez, a seguinte publicação do vereador paulistano Nabil Bonduki (PT): Legenda: Apelo em torno do restauro de obra de arte no Edifício Triângulo, projetado por Oscar Niemeyer. Clique aqui ou na imagem para acessar a publicação no Instagram do vereador Nabil Bonduki (PT) Começo com uma provocação: quando o edifício foi erguido, num momento distinto da acumulação de capital no local, e do qual ele é produto direto, pois representa uma forma de cristalização dessa acumulação, o poder público pagou pelos mosaicos?

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Luxo decadente e a despolitização na preservação de símbolos de uma burguesia em ruínas

Introdução Ao me deparar com discussões como a do episódio “Pioneiro e Solitário”, do canal São Paulo nas Alturas, de Raul Juste Lores, sempre termino achando que tem faltado um direcionamento de esforços mais cuidadoso nas fileiras do campo progressista, que tem se colocado como aliado de um punhado de famílias com musculatura financeira suficiente para morar nos bairros mais nobres do Centro Expandido. Legenda: Vídeo do canal São Paulo nas Alturas, traça comparações entre dois edifícios pioneiros, em São Paulo e Nova Iorque, para discutir questões ligadas ao Centro e ao Parque Dom Pedro II.

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Populismo antipedágio domina preocupações com nova concessão da Dutra

No início de junho, quando nosso membro João Vitor Reis trouxe uma reportagem da Folha de S.Paulo para discussão. Intitulada “MPF tenta adiar cobrança de multa de free flow na Dutra, e proposta gera preocupação em setor de tags”. Minha reação imediata foi apontar que seguimos com zero discussão sobre transporte público. Considerando quão tímidos seguem sendo a nossa imprensa e os outros atores relevantes, gostaria de retomar neste artigo os principais apontamentos das últimas discussões do Coletivo em torno da Rodovia Presidente Dutra (BR-116), concedida à iniciativa privada pelo governo federal na primeira metade de 2022 (notícia oficial), ainda sob o período bolsonarista.

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Mentir falando a verdade: Dirley Terracasa e a rua Francisco Aquarone

Em uma recente entrega algorítmica do Instagram, pude apreciar mais um exemplo de apelo problemático em torno da preservação de conjuntos de casas em áreas centrais extremamente bem servidas de infraestrutura. Confesso que o caso não é dos piores, como perfeitamente sintetizou Tiago de Thuin ao apreciar meu compartilhamento em nosso grupo no Telegram: “essa rua merece mais tombamento do que a média que a gente vê por aqui, mas ainda não merece”.

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Imobiliarismo ou dupla moral de memória curta?

De partida, fica a impressão de que, para Nestor Tupinambá, todas as dimensões discutidas em seu novíssimo artigo “Rodoviarismos e outros ‘ismos’” são capturadas pelas incorporadoras. Ao citar o tenebroso caso do túnel proposto para a avenida Sena Madureira, por exemplo, insere benefícios imobiliários estranhos. Ora, para adensar a Vila Mariana com empreendimentos verticais já há eixos associados a estações de antigas linhas, incluindo a pioneira 1-Azul (Jabaquara-Tucuruvi). O túnel pouco contribuiria para abrir “espaços para se construírem torres, shoppings e hotéis em zonas nobres da cidade”.

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Esquinas mortas ou indignação seletiva?

Contextualização Nos últimos dias, o corte de uma figueira na Vila Mariana foi assunto em diferentes redes sociais, por diferentes pessoas, incluindo pessoas com ensino superior completo e trajetória acadêmica inegável. Foram várias as manifestações que, embora legítimas, parecem repetir os cacoetes de sempre. Quero, aqui, desafiar a ideia de “morte de uma esquina” presente em diferentes momentos nas últimas semanas. Legenda: Algumas das publicações realizadas em redes sociais. Uma bolha muito bem conectada escolhe sem remorso suas preocupações e a cidade incluída nelas é do tamanho de uma ervilha.

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TJSP erra feio ao liberar mototáxi em São Paulo

O TJSP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) indeferiu a ação civil pública da Prefeitura de São Paulo contra as operadoras de mototáxi pirata que usam intermediação por aplicativos para camuflar a relação trabalhista que têm com seus empregados, a Uber e a 99. O judiciário considerou inconstitucional o Decreto Municipal n.º 62.144/2023, que suspendeu temporariamente no Município de São Paulo a utilização de motocicletas para a prestação do serviço de transporte individual remunerado de passageiros por meio de aplicativos.

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Faraonismo rodoviarista continua drenando recursos no Grande ABC

Muitas vezes, nos deparamos com sequências de acontecimentos que, em meio à correria diária, acabam ficando em segundo plano, com pouca ou nenhuma menção em nossos espaços cibernéticos. Recentemente, o Grande ABC ofereceu uma série de demonstrações em torno da mentalidade rodoviarista, que ainda predomina e reforça o triste diagnóstico da mais recente edição da Pesquisa Origem e Destino. A cobertura pouco crítica da imprensa local, que costuma ser ainda mais fraca do que os veículos sediados na capital, contribui para criar um clima de propaganda e normalização, sem suscitar grandes dores de cabeças às prefeituras.

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São Paulo é refém de preservacionismos com critérios duvidosos

Sobre a recente demolição do edifício da Cultura Inglesa que funcionava na rua Deputado Lacerda Franco, classificado no Instagram como “icônico” e “de valor histórico” por Nabil Bonduki (PT), queremos aproveitar para reeditar alguns comentários na forma de um artigo, para que nosso latim não seja enterrado no submundo das redes pegajosas de Mark Zuckerberg. De partida, há que se compreender que as pessoas (frequentadoras e, sobretudo, moradoras) do bairro ou da vizinhança mais imediata, correspondem a uma pequena fração da cidade, não podendo ser descartada a possibilidade de protagonismo nas opressões em escala metropolitana que estão ligadas com a preservação de tecidos (ou seja, fragmentos do espaço que humanos transformam para viver) repletos de edifícios de baixo gabarito (ou seja, de pouca altura) e baixa densidade (ou seja, que abrigam poucos habitantes).

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Dane-se Pinheiros e a esquerda caviar

Quando figuras proeminentes da esquerda brasileira, como Nabil Bonduki (PT) e Guilherme Boulos (PSOL) publicam em suas redes sociais, sempre vale avaliar não só os comentários, mas a moderação (ou a falta dela) em relação às ideias de potenciais pessoas eleitoras. Seriam alguns comentários um termômetro de um eleitorado que demonstra ser viciado em volante e cidades pouco densas e muito segregadas? Aparentemente, sim. As tristes demonstrações são constantes e é difícil observá-las com passividade.

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