plano diretor

Discutir cidades requer mais nuances

Recentemente, enquanto buscava novidades no mercado imobiliário, acabei me deparando com uma reportagem do Valor Econômico publicada em janeiro. Intitulado “Arquitetos querem mais do que seus ‘carimbos’ nos prédios”, o texto consulta arquitetos e figuras ligadas à incorporação, sendo oportuno para um coletivo que, como o nosso, trata da mobilidade no espaço que pode ter sido ou estar sendo transformado pelas figuras entrevistadas. De partida, cito a fala de Igor Melro, diretor comercial da Porte Engenharia e Urbanismo, que tem atuação relevante no segmento de alto padrão do Tatuapé e do Jardim Anália Franco.

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A cidade não cabe no sobrado

Introdução No final de outubro, Vicente Vilardaga, em sua coluna “Andanças na metrópole”, publicada pela Folha de S.Paulo, escreveu artigo intitulado “Os problemas causados pela verticalização desenfreada em São Paulo”. Infelizmente, aprendi que, no ativismo, não basta defender um ideal, é preciso defendê-lo de infinitas maneiras e infinitas vezes. Nada do que direi a seguir é uma novidade, mas talvez apresente uma roupagem diferente, capaz de contribuir positivamente para um debate que, com o perdão da franqueza, tem se perdido na romantização de paisagens bastante específicas.

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Paralisia e a cidade contra a cidade

Contextualização Nos últimos meses — ou seriam anos? —, tenho observado padrões preocupantes e saturado meus companheiros deste Coletivo com mais ou menos os mesmos assuntos, ainda que a roupagem pareça diferente num ou noutro momento. Como todo trabalho voluntário, o que faço aqui acaba entrelaçado com a minha vida, não se resumindo meramente a trabalho (de campo, de produção textual, fora momentos torturantes à frente do Instagram). Na maior parte do tempo, eu também lido com decisões difíceis, às vezes, paralisantes.

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Raça, urbanismo e o tabu brasileiro

Introdução Nos Estados Unidos, é comum que o debate urbano associe nimbysmo e raça: redlining, white flight, zoneamento excludente. Textos no New York Times (aqui e aqui, por exemplo) ou The Atlantic (aqui e aqui, por exemplo) tratam abertamente de como a segregação urbana e a racial se entrelaçam. No Brasil, essa associação permanece um tabu nas escassas discussões sobre cidades. Preferimos falar em “preservação do verde”, “patrimônio” e “modos de vida”, contudo, o resultado é o mesmo: exclusão de populações pobres e, não raramente, racializadas, dos centros urbanos.

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O “bosque” e a cidade: entre a árvore e o erário

Prólogo No dia 25 de maio, moradores da Zona Oeste de São Paulo organizaram um protesto contra a derrubada do chamado Bosque dos Salesianos. A área verde, localizada no Alto da Lapa, pertence à iniciativa privada e foi vendida à incorporadora Tegra para a construção de um condomínio residencial. A Justiça chegou a suspender as obras, mas a decisão foi revertida, e agora basta a assinatura de um secretário municipal para que a construção seja liberada.

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A torre, o chilique e o colapso: elites, escassez e a farsa do equilíbrio urbano

Legenda: Anúncio de novo empreendimento imobiliário no Instagram (acima, em destaque, grifos do autor) e comentários negativos, um deles embalado na hashtag #ChegaDePrédios. Clique na imagem para abri-la e ampliá-la Começo provocando: ao contrário da desgastada linha argumentativa que, mais uma vez, ressurge na forma de crítica a um empreendimento imobiliário que não surpreende pela sua proposta ou localização, a cidade tem estrutura. O que ela não comporta é estupidez.

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Esquinas mortas ou indignação seletiva?

Contextualização Nos últimos dias, o corte de uma figueira na Vila Mariana foi assunto em diferentes redes sociais, por diferentes pessoas, incluindo pessoas com ensino superior completo e trajetória acadêmica inegável. Foram várias as manifestações que, embora legítimas, parecem repetir os cacoetes de sempre. Quero, aqui, desafiar a ideia de “morte de uma esquina” presente em diferentes momentos nas últimas semanas. Legenda: Algumas das publicações realizadas em redes sociais. Uma bolha muito bem conectada escolhe sem remorso suas preocupações e a cidade incluída nelas é do tamanho de uma ervilha.

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Verônica Bilyk volta a atacar COMMU em audiência sobre quadrilátero elitista

Legenda: Slide exibido durante a transmissão da audiência da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente no canal da Câmara Municipal de São Paulo. Fica a pergunta: seria inclusivo um quadrilátero com imóveis de 4 a 7 milhões em lotes monofuncionais? Clicar na imagem também reproduz o vídeo no YouTube Embora a mandatária tenha pedido por respeito nos minutos iniciais da audiência, Verônica Bilyk, publicitária e empresária que já foi proprietária de um bistrô polonês em Pinheiros (veja mais aqui, aqui, aqui e aqui) e candidata à Câmara de São Paulo pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro) em 2024, reagiu negativamente pouco depois de um comentário inicial nosso no YouTube, contrariando eventualmente as orientações.

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São Paulo é refém de preservacionismos com critérios duvidosos

Sobre a recente demolição do edifício da Cultura Inglesa que funcionava na rua Deputado Lacerda Franco, classificado no Instagram como “icônico” e “de valor histórico” por Nabil Bonduki (PT), queremos aproveitar para reeditar alguns comentários na forma de um artigo, para que nosso latim não seja enterrado no submundo das redes pegajosas de Mark Zuckerberg. De partida, há que se compreender que as pessoas (frequentadoras e, sobretudo, moradoras) do bairro ou da vizinhança mais imediata, correspondem a uma pequena fração da cidade, não podendo ser descartada a possibilidade de protagonismo nas opressões em escala metropolitana que estão ligadas com a preservação de tecidos (ou seja, fragmentos do espaço que humanos transformam para viver) repletos de edifícios de baixo gabarito (ou seja, de pouca altura) e baixa densidade (ou seja, que abrigam poucos habitantes).

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Dane-se Pinheiros e a esquerda caviar

Quando figuras proeminentes da esquerda brasileira, como Nabil Bonduki (PT) e Guilherme Boulos (PSOL) publicam em suas redes sociais, sempre vale avaliar não só os comentários, mas a moderação (ou a falta dela) em relação às ideias de potenciais pessoas eleitoras. Seriam alguns comentários um termômetro de um eleitorado que demonstra ser viciado em volante e cidades pouco densas e muito segregadas? Aparentemente, sim. As tristes demonstrações são constantes e é difícil observá-las com passividade.

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Paisagens invisíveis

Prólogo Pequenas alterações foram realizadas para explorar possibilidades inexistentes na rede social, além disso, foram feitas pequenas alterações para adequar o conteúdo à proposta do site. Superlotação: subproduto de uma paisagem excludente Legenda: Versão sem recorte da publicação original, de 3 de março. Trem superlotado no Serviço 710 (embarque para viagem entre as estações Ipiranga e Santo André), pico vespertino. Clique para abrir e ampliar “ O problema nunca foi "

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Quadrilátero de luxo não é “oásis”

O recente caso do Quadrilátero Vilas do Sol, mais uma vez, expõe uma argumentação criativa (para não dizer desonesta) e polarizadora, que pouco contribui para a construção de uma agenda robusta em torno da melhoria da urbanidade das cidades da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo). Pelas falas de Nabil Bonduki (PT), vereador eleito na última eleição, a região apresenta um modelo que equilibra a verticalização. Discurso perigoso. Luxo, herdeirismo e hipocrisia.

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Luxo, herdeirismo e hipocrisia. Nabil, você legislará para quem?

Lamentavelmente, de novo, encontramos um mandato de um partido de origem operária e metalúrgica se perdendo nos devaneios de herdeiras milionárias e, pior, oferecendo combustível para avaliações distorcidas do espaço. Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Nabil Bonduki (@nabil_bonduki) Legenda: Publicação compartilhada por Nabil Bonduki em parceria com o Pró-Pinheiros em 23 de fevereiro de 2025 Considerando a defesa da mudança do conjunto de lotes que compõe um minúsculo perímetro de Pinheiros batizado como “Vilas do Sol” para ZPR (Zona Predominantemente Residencial), gostaríamos de entender por qual motivo determinadas características estão sendo atribuídas de maneira exagerada e irrazoável.

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Desenvolver a periferia ou democratizar a cidade?

E se a gente buscasse evitar que a capital paulista tenha bairros moedores de pobres, como a Cidade Tiradentes? O problema é que alguns de nós estamos prometendo descentralização indiscriminada, quando toda a sociedade deveria buscar a democratização do acesso (e, por acesso, estou falando de conseguir morar) às centralidades. Legenda: Publicação realizada no X no aniversário de 471 anos da cidade de São Paulo Lamento, mas o que o Boulos (PSOL) está sugerindo não é factível.

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O contorcionismo urbanístico de Bob Fernandes e Mauro Calliari

Em 21 de janeiro, Bob Fernandes entrevistou o doutor em urbanismo Mauro Calliari, que mais uma vez poderia ter sido menos genérico e mais cuidadoso em suas colocações, principalmente após nos presentear com platitudes em torno da rodovia Raposo Tavares no final de 2024. Legenda: Vídeo de 21 de janeiro do canal de Bob Fernandes Sendo muito objetivo, eu perdi uma hora do meu precioso tempo para ouvir ainda mais platitudes!

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Caça à “bruxa da verticalização” expôs contradições às vésperas do segundo turno

Recentemente, o recém-eleito vereador Nabil Bonduki (PT) — resultado para o qual contribuí, pois era um dos menos piores, e preciso dizer com todas as letras que assim o considerei — deu continuidade à sua esteira de vídeos curtos no Instagram. Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Nabil Bonduki (@nabil_bonduki) Legenda: Vídeo publicado em 24 de outubro no Instagram. “Ícone da degradação urbana” Na mira da metralhadora de platitudes empunhada pelo professor da USP (Universidade de São Paulo), estava a região na qual nasci e vivo: a Zona Leste paulistana.

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Direito de criticar a preservação das Vilas do Sol deve ser respeitado

Para defender um centro comercial e residencial de luxo, a Gazeta de Pinheiros, mais uma vez, retomou a interpretação ingênua do Plano Diretor Estratégico, reforçando uma noção genérica de “trabalhadores” e “interesses imobiliários”. Em tela, mais uma vez, quem especula com restrições artificiais é tratado como herói, enquanto a produção imobiliária é generalizada como uma casca vazia e de utilidade duvidosa. Legenda: Galeria da viagem ao quadrilátero em abril de 2024.

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O túnel Sena Madureira cabe no Zoneamento? Próximos passos da luta!

Já discutimos os vícios de contrato do túnel Sena Madureira que está sendo proposto para a Vila Mariana. Ao custo de túnel de metrô, o orçamento previsto hoje é de cerca de 575 milhões, para 500 m de túnel. E a obra continua, mesmo com a admissão do diretor do consórcio contratado pelo pagamento de 1 milhão em propina para que houvesse direcionamento da licitação. Além das irregularidades de contrato, é preciso perguntar se esse túnel pode ser construído ali.

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Seu “ecobairro”, nossa humilhação. Uma paisagem que tritura a maioria

O cinismo da discussão em torno da suposta preservação ambiental da capital paulista, que estimula a urbanização difusa (chamada de urban sprawl, em inglês), muitas vezes a partir de favelas e loteamentos de origem clandestina ou irregular, produz outro efeito colateral bastante preocupante: o esgarçamento da escala local, negando São Paulo como metrópole e outros 38 municípios como integrantes de sua região metropolitana. De olho no preocupante fenômeno de associações de moradores, organizações não governamentais e indivíduos supervalorizarem a escala local, no que parece um possível efeito do fenômeno descrito por Mike Davis e citado por David Harvey com relação ao mercado imobiliário estadunidense, ou seja, um comportamento exacerbador do direito de propriedade que resulta num “microfascismo de vizinhança”, passei a olhar mais cuidadosamente para a urbanização difusa sem abandonar um olhar voltado à classe social e, sobretudo, à concentração de renda.

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“Ok, Caio”, coordenador da Rede Nossa São Paulo recusa diálogo

Decidi romper com o silêncio após sofrer ao longo do processo de revisão do ordenamento territorial da capital paulista, que levou alguns anos para ser concluído, atravessado por uma pandemia e tentativas de interdição de uma esquerda sem maioria no parlamento municipal. Enquanto as engrenagens legislativas giravam, ora mais depressa, ora nem tanto, eu busquei fazer um debate relativamente pacífico, quase acadêmico, mas esbarrei na profunda antipatia de sujeitos desacostumados a terem suas posições de poder e prestígio questionadas dentro do campo progressista.

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