zona oeste

A cidade não cabe no sobrado

Introdução No final de outubro, Vicente Vilardaga, em sua coluna “Andanças na metrópole”, publicada pela Folha de S.Paulo, escreveu artigo intitulado “Os problemas causados pela verticalização desenfreada em São Paulo”. Infelizmente, aprendi que, no ativismo, não basta defender um ideal, é preciso defendê-lo de infinitas maneiras e infinitas vezes. Nada do que direi a seguir é uma novidade, mas talvez apresente uma roupagem diferente, capaz de contribuir positivamente para um debate que, com o perdão da franqueza, tem se perdido na romantização de paisagens bastante específicas.

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Paralisia e a cidade contra a cidade

Contextualização Nos últimos meses — ou seriam anos? —, tenho observado padrões preocupantes e saturado meus companheiros deste Coletivo com mais ou menos os mesmos assuntos, ainda que a roupagem pareça diferente num ou noutro momento. Como todo trabalho voluntário, o que faço aqui acaba entrelaçado com a minha vida, não se resumindo meramente a trabalho (de campo, de produção textual, fora momentos torturantes à frente do Instagram). Na maior parte do tempo, eu também lido com decisões difíceis, às vezes, paralisantes.

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Raça, urbanismo e o tabu brasileiro

Introdução Nos Estados Unidos, é comum que o debate urbano associe nimbysmo e raça: redlining, white flight, zoneamento excludente. Textos no New York Times (aqui e aqui, por exemplo) ou The Atlantic (aqui e aqui, por exemplo) tratam abertamente de como a segregação urbana e a racial se entrelaçam. No Brasil, essa associação permanece um tabu nas escassas discussões sobre cidades. Preferimos falar em “preservação do verde”, “patrimônio” e “modos de vida”, contudo, o resultado é o mesmo: exclusão de populações pobres e, não raramente, racializadas, dos centros urbanos.

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As marginais de São Paulo e a negação da cidade

A Marginal Tietê não é somente uma rodovia. É uma sentença. Um rio de veículos ladeando um rio morto. Um dos piores cartões de visita urbanos do mundo — e, ainda assim, aceito. Aceito como destino, como funcionalidade, como cicatriz convertida em moldura. Entre o barulho incessante, o cheiro de diesel e a paisagem de galpões e concreto, o paulistano passa e repassa, todos os dias, pela prova viva de que sua cidade parece ter desistido.

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O “bosque” e a cidade: entre a árvore e o erário

Prólogo No dia 25 de maio, moradores da Zona Oeste de São Paulo organizaram um protesto contra a derrubada do chamado Bosque dos Salesianos. A área verde, localizada no Alto da Lapa, pertence à iniciativa privada e foi vendida à incorporadora Tegra para a construção de um condomínio residencial. A Justiça chegou a suspender as obras, mas a decisão foi revertida, e agora basta a assinatura de um secretário municipal para que a construção seja liberada.

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A torre, o chilique e o colapso: elites, escassez e a farsa do equilíbrio urbano

Legenda: Anúncio de novo empreendimento imobiliário no Instagram (acima, em destaque, grifos do autor) e comentários negativos, um deles embalado na hashtag #ChegaDePrédios. Clique na imagem para abri-la e ampliá-la Começo provocando: ao contrário da desgastada linha argumentativa que, mais uma vez, ressurge na forma de crítica a um empreendimento imobiliário que não surpreende pela sua proposta ou localização, a cidade tem estrutura. O que ela não comporta é estupidez.

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Verônica Bilyk volta a atacar COMMU em audiência sobre quadrilátero elitista

Legenda: Slide exibido durante a transmissão da audiência da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente no canal da Câmara Municipal de São Paulo. Fica a pergunta: seria inclusivo um quadrilátero com imóveis de 4 a 7 milhões em lotes monofuncionais? Clicar na imagem também reproduz o vídeo no YouTube Embora a mandatária tenha pedido por respeito nos minutos iniciais da audiência, Verônica Bilyk, publicitária e empresária que já foi proprietária de um bistrô polonês em Pinheiros (veja mais aqui, aqui, aqui e aqui) e candidata à Câmara de São Paulo pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro) em 2024, reagiu negativamente pouco depois de um comentário inicial nosso no YouTube, contrariando eventualmente as orientações.

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São Paulo é refém de preservacionismos com critérios duvidosos

Sobre a recente demolição do edifício da Cultura Inglesa que funcionava na rua Deputado Lacerda Franco, classificado no Instagram como “icônico” e “de valor histórico” por Nabil Bonduki (PT), queremos aproveitar para reeditar alguns comentários na forma de um artigo, para que nosso latim não seja enterrado no submundo das redes pegajosas de Mark Zuckerberg. De partida, há que se compreender que as pessoas (frequentadoras e, sobretudo, moradoras) do bairro ou da vizinhança mais imediata, correspondem a uma pequena fração da cidade, não podendo ser descartada a possibilidade de protagonismo nas opressões em escala metropolitana que estão ligadas com a preservação de tecidos (ou seja, fragmentos do espaço que humanos transformam para viver) repletos de edifícios de baixo gabarito (ou seja, de pouca altura) e baixa densidade (ou seja, que abrigam poucos habitantes).

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Dane-se Pinheiros e a esquerda caviar

Quando figuras proeminentes da esquerda brasileira, como Nabil Bonduki (PT) e Guilherme Boulos (PSOL) publicam em suas redes sociais, sempre vale avaliar não só os comentários, mas a moderação (ou a falta dela) em relação às ideias de potenciais pessoas eleitoras. Seriam alguns comentários um termômetro de um eleitorado que demonstra ser viciado em volante e cidades pouco densas e muito segregadas? Aparentemente, sim. As tristes demonstrações são constantes e é difícil observá-las com passividade.

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Paisagens invisíveis

Prólogo Pequenas alterações foram realizadas para explorar possibilidades inexistentes na rede social, além disso, foram feitas pequenas alterações para adequar o conteúdo à proposta do site. Superlotação: subproduto de uma paisagem excludente Legenda: Versão sem recorte da publicação original, de 3 de março. Trem superlotado no Serviço 710 (embarque para viagem entre as estações Ipiranga e Santo André), pico vespertino. Clique para abrir e ampliar “ O problema nunca foi "

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Quadrilátero de luxo não é “oásis”

O recente caso do Quadrilátero Vilas do Sol, mais uma vez, expõe uma argumentação criativa (para não dizer desonesta) e polarizadora, que pouco contribui para a construção de uma agenda robusta em torno da melhoria da urbanidade das cidades da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo). Pelas falas de Nabil Bonduki (PT), vereador eleito na última eleição, a região apresenta um modelo que equilibra a verticalização. Discurso perigoso. Luxo, herdeirismo e hipocrisia.

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Luxo, herdeirismo e hipocrisia. Nabil, você legislará para quem?

Lamentavelmente, de novo, encontramos um mandato de um partido de origem operária e metalúrgica se perdendo nos devaneios de herdeiras milionárias e, pior, oferecendo combustível para avaliações distorcidas do espaço. Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Nabil Bonduki (@nabil_bonduki) Legenda: Publicação compartilhada por Nabil Bonduki em parceria com o Pró-Pinheiros em 23 de fevereiro de 2025 Considerando a defesa da mudança do conjunto de lotes que compõe um minúsculo perímetro de Pinheiros batizado como “Vilas do Sol” para ZPR (Zona Predominantemente Residencial), gostaríamos de entender por qual motivo determinadas características estão sendo atribuídas de maneira exagerada e irrazoável.

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Autonomismo, rebeldia oportunista e escassez de moradia na USP

De partida, é importante salientar que o CRUSP (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo) foi construído em 1963 para os Jogos Pan-americanos, contudo, com o estabelecimento da ditadura nos anos 60, tudo foi fechado, sendo que parte foi demolida, parte virou administração da universidade. Houve uma invasão, revertida depois. Com a redemocratização, os blocos A a G foram fechados e reformados para fins de moradia estudantil, assim, no final dos anos 1980 todo o CRUSP foi oficialmente reinaugurado.

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Predinhos: egoísmo urbano “do bem” em reedição do Brooklin à Vila Madalena

Motivação Os chamados “predinhos” se transformaram numa espécie de “produto validado” para progressistas endinheirados que buscam localização estratégica, como bairros centrais com boa oferta de empregos e amenidades, com forte diferenciação em relação às classes médias e altas. O desejo (ainda que velado) de exclusividade e filtragem socioeconômica robusta é ofuscado pela tentativa de convencimento (próprio ou auxiliado pelo mercado) de que tudo não passa da busca por uma relação charmosa entre pessoas e cidade, uma versão de aço e concreto da “gastronomia afetiva” que superfatura cafés e torradas no “bairro nobre” mais próximo de você.

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Plano Diretor da Cidade Universitária da USP: uma oportunidade a não ser perdida

No último dia 18 de outubro, foi lançado o documento com as propostas consolidadas para o novo Plano Diretor da Cidade Universitária Armando Salles de Oliveira da Universidade de São Paulo e, ao contrário dos planos anteriores, este plano diretor não está sendo criado dentro da estrutura burocrática da universidade, o elemento participativo está ativamente presente em sua construção, algo muito positivo para uma instituição que ainda tem suas principais instâncias de decisão uma participação pequena da população dos trabalhadores, estudantes e estudantes-moradores do campus.

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Direito de criticar a preservação das Vilas do Sol deve ser respeitado

Para defender um centro comercial e residencial de luxo, a Gazeta de Pinheiros, mais uma vez, retomou a interpretação ingênua do Plano Diretor Estratégico, reforçando uma noção genérica de “trabalhadores” e “interesses imobiliários”. Em tela, mais uma vez, quem especula com restrições artificiais é tratado como herói, enquanto a produção imobiliária é generalizada como uma casca vazia e de utilidade duvidosa. Legenda: Galeria da viagem ao quadrilátero em abril de 2024.

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Má arquitetura não se combate vetando prédios

Prólogo Em 9 de agosto, nosso membro Wesley Café Calazans comentou sobre como o discurso radicalmente contra prédios parece ser alimentado pela ausência de boa arquitetura em muito do que é produzido na capital paulista. A partir daí, verborrágico como sou, teci uma série de comentários, boa parte dos quais foram utilizados para construir este artigo. Escassez e hipocrisia Estou certo de que a má arquitetura contribui para o rechaço à verticalização, entretanto, suspeito ser mais fácil se aproveitar do problema, afinal, ele é um excelente pretexto para querer mandar “os amiguinhos” para longe, afinal, exigir boa arquitetura ainda pressupõe demolir casas.

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Lote Nova Raposo motiva busca por metrô milagroso

Recentemente, o governo estadual anunciou a continuidade do Lote Nova Raposo, um dos vários pacotes do programa de desestatização de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Este desdobramento do Executivo paulista não necessariamente suscita uma derrota para o movimento Nova Raposo Não, que envolve diferentes organizações, algumas delas problematicamente reacionárias, como o Movimento Defenda São Paulo, e já angariou mais de 19 mil assinaturas contra o Lote. Na verdade, a ideia deste artigo é, mais uma vez, retomar a problematização em torno da reivindicação por transporte sobre trilhos, reiterada em reportagem recente do jornal SP2 da TV Globo.

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Oposição à concessão da Raposo Tavares: metrô não é bala de prata

Este artigo é uma espécie de resposta ao texto “A nova Raposo Tavares e o velho urbanismo”, publicado na coluna de Mauro Calliari no jornal Folha de São Paulo. A questão da rodovia Raposo Tavares, um dos assuntos do momento em virtude do Lote Nova Raposo do Programa de Parcerias de Investimentos do Estado de São Paulo (PPI-SP) possui várias camadas e, infelizmente, dá sinais de que nossos intelectuais não estão preparados para o monstro que vai surgir no espelho.

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Subterfúgios e ausência de soluções críveis esvaziam críticas ao adensamento de Pinheiros

Artigo adaptado a partir de uma resposta ao Pró-Pinheiros no Instagram. Considerando que estamos em um ambiente urbano metropolitano, qualquer movimentação tem causa/efeito em toda a sua estrutura. O Pró-Pinheiros, assim como a comunidade do Pacaembu, é uma coalizão de agentes com seus próprios interesses, e o cerne dos interesses dos agentes que formam o Pró-Pinheiros é evitar o adensamento da região. O Pacaembu, assim como Pinheiros, possui poder econômico, tempo (que se configura como organização) e influência política.

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