O “bosque” e a cidade: entre a árvore e o erário

Por Caio César | 20/07/2025 | 5 min.

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Legenda: Imagem de satélite do Google Earth exibindo parte do que se conhece como “Alto da Lapa”. A imagem foi editada para realçar, ainda que muito imperfeitamente, o verde, as sombras e os telhados
A defesa do Bosque dos Salesianos pode até soar ambientalista, mas revela uma cidade onde o verde é privilégio. Nela, o erário, serve como moeda para manter o subúrbio onde ele não deveria existir

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No dia 25 de maio, moradores da Zona Oeste de São Paulo organizaram um protesto contra a derrubada do chamado Bosque dos Salesianos. A área verde, localizada no Alto da Lapa, pertence à iniciativa privada e foi vendida à incorporadora Tegra para a construção de um condomínio residencial. A Justiça chegou a suspender as obras, mas a decisão foi revertida, e agora basta a assinatura de um secretário municipal para que a construção seja liberada. O movimento contrário ao empreendimento denuncia o risco de perda de uma área arborizada com valor histórico e ambiental.

Como sempre, é mais complicado: há camadas incômodas nessa disputa que não podem ser ignoradas. Por trás da retórica verde, há uma geografia seletiva da sensibilidade. É doloroso, mas persiste uma profunda assimetria sobre quem pode pautar o uso do solo na cidade.


Verde

O perímetro no Alto da Lapa não é o Parque Augusta, mas tampouco é Francisco Morato, um dos municípios pobres e precários que sabidamente irrigam o oeste paulistano com mão de obra. Por perímetro, leia-se: tanto a área do “bosque”, quanto todo o entorno, que vai além do tecido equivocadamente tombado no passado. A área verde em disputa não foi inserida no tombamento no passado.

Trata-se de uma área consolidada, valorizada, repleta de casarios e ruas pensadas para o carro. Nada mais do que um dos muitos fragmentos de velhos loteamentos da City (notadamente City Lapa, mas também Alto dos Pinheiros a sul, que deu origem ao Alto de Pinheiros). Defender ali um “bosque encantado” é ignorar que sua preservação se deu, em parte, por acidente (para não falar incompetência). O terreno pertenceu ao antigo Seminário Salesiano e só se manteve como área verde porque não houve outro uso mais rentável ou útil até agora. O “valor ambiental” aparece agora, tardiamente, como argumento.

Enquanto isso, vastas porções da cidade seguem precarizadas, com baixa arborização, infraestrutura deficiente e violência crônica. Quando se trata de reurbanizar áreas de manancial, combater a expansão carrista ou financiar transporte público e moradia digna nas franjas da cidade, o erário vira um recurso escasso. Mas, quando se trata de salvar o quintal de mansões em bairros nobres, a probabilidade de tombar e, consequentemente, precisar compensar incorporadores com muitos milhões de reais frustrados, não parece encontrar falta de energia e recursos.


Hipocrisia

Se o terreno foi adquirido legalmente, e o licenciamento tramitou conforme as regras vigentes, o único caminho para impedir a obra — salvo erro administrativo comprovado — é a indenização. Em outras palavras, a conta recairia sobre todos nós. Nada mais legítimo do que perguntar: por que gastar milhões de reais públicos para preservar uma área que serve, antes de tudo, a um enclave privilegiado?

A incorporadora Tegra, gostemos dela ou não, parece ter agido conforme o “jogo do planejamento” permite: comprou a área, negociou compensação ambiental, e aguardou aprovação da prefeitura. Questionar esse processo só faz sentido se estivermos dispostos a também rever as regras que beneficiam o tecido-ajardinado por completo, sem mais exceções estapafúrdias, que negam a falácia ambiental da baixa densidade, a evolução da infraestrutura e a expansão violenta da mancha urbana.

Por que o terreno arborizado difere daqueles que existiram no passado, quando o loteamento deu origem à exploração imobiliária sistemática daquela porção da capital? Simples: não foi desfigurado no passado recente para a construção de uma ou mais casas unifamiliares de dimensões generosas. Tivesse sido, estaria, parcialmente concretado e desmatado na mais profunda e cínica normalidade.


Contrapartida

A sociedade civil organizada quer o tombamento de todo o conjunto: o bosque e as edificações de caráter educativo-pastoral da Inspetoria Salesiana São João Bosco. Não se trata apenas de impedir o corte de árvores; a proposta inclui travar o uso residencial da área vendida. Estamos diante de uma escolha política e orçamentária.

É razoável aceitar o custo que isso impõe ao erário, sem descartar um possível litígio, com indenizações milionárias, desde que o restante do bairro, atualmente travado por restrições que garantem feições suburbanas e “muros legais”, seja aberto ao adensamento urbano intenso. Se parte da Zona Oeste quer manter seu bosquezinho, deve abandonar o privilégio do lote murado, da rua cuidadosamente desenhada para desestimular tráfego de passagem, da casa isolada no meio de um lote com grama.

E aí? Ou destombamos tudo, com abertura à cidade real, ou não tombamos nada.


Conflito

O debate escancara algo que a esquerda institucional e os movimentos ambientalistas nem sempre querem enfrentar: a cidade está estruturada sobre privilégios, e mexer nisso exige conflito. Não há saída conciliatória quando a disputa envolve quem detém o capital imobiliário e, ainda que nas entrelinhas, quem ocupa a região metropolitana informalmente, à margem do que se reconhece como “planejado” e à sombra do que se entende vagamente como “trem”.

A luta pela preservação do “bosque” pode até ser legítima, mas ela não pode ser tratada como prioridade absoluta num orçamento municipal que falha em oferecer serviços básicos às franjas. A defesa do verde precisa ser sistêmica, conectada a uma política urbana que combata a segregação, reduza deslocamentos e promova justiça territorial. Do contrário, vira fetiche de elite.


Encerramento

Em suma, se a cidade tem dinheiro para desapropriar o bosquezinho, também precisa ter para requalificar bairros periféricos, construir moradias de qualidade, plantar árvores nas zonas mais quentes e violentas, e garantir dignidade a quem não nasceu com um bosque no quintal.

Do contrário, o discurso não é ambientalista. É ecofascista.

É jardinagem com dinheiro público.

É a manutenção de um subúrbio fora de lugar.

É a preservação da desigualdade com eufemismos floridos.


Colaborações: Lucian De Paula e Tiago de Thuin (interlocução)



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