Por Caio César | 19/08/2025 | 7 min.
Se você me vir xingando a 574J-10, já sabe: a disciplina de Bases Matemáticas voltou à minha rotina universitária. E, junto dela, voltou também o roteiro tragicômico que une a Vila Formosa, na Zona Leste paulistana, à avenida Kennedy, em São Bernardo do Campo, costurado por linhas que não se encontram, corredores que nem sempre existem e escolhas de transporte dignas de um teste de resistência.
Sim, voltarei a cursar a disciplina que persiste como um karma do meu ciclo acadêmico — e, como não poderia deixar de ser, isso envolve voltar a atravessar a metrópole de leste a sudeste com a leveza de um saco de cimento.
Poderia escrever um artigo inteiro sobre os cerca de R$ 500 mensais gastos com corridas por aplicativo. Dinheiro que, como bem calculei em momento de fúria consciente, daria para comprar quase 20 kg em carnes na Swift — o suficiente para alimentar quatro pessoas por 90 dias (ou até mais). É tão caro que eu só me permito gastar com viagens de ida, amargando muito mais tempo na volta para casa, mesmo com o cansaço acumulado.
Mas o que me alimenta, no momento, é outra coisa: a frustração. O objetivo que tanto me frustra? Buscar mecanismos para não ter meu acesso à cidade sistematicamente dificultado.
A ida até São Bernardo nunca foi apenas uma ida. É um jogo de expectativas furadas, no qual o transporte público parece baseado num contrato tácito:
Claro, individualmente, eu poderia me resignar, seguir pagando caro na 99, seguir tentando ser criativo com a função “Negocia” — aquela que a maioria usa para abaixar o preço, mas que eu, no contrafluxo da racionalidade da plataforma, uso para aumentá-lo e driblar cancelamentos e atrasos, entretanto, como você pode imaginar, se tem texto publicado aqui no Coletivo, significa que não houve nem haverá resignação. Sigo blindado do conformismo.
O que a utilização dos serviços da 99 transparece é que não falta infraestrutura: os motoristas circulam por imensas avenidas e há poucos momentos de estrangulamento ou poucas situações que levam a alguma ginástica pelas ruas estreitas de bairros da Zona Leste, seja pelo trajeto que prioriza a avenida dos Estados (mais comum) ou a rodovia Anchieta (menos comum). As controvérsias em torno do acesso ao km 16 da rodovia e o desenho do corredor Rudge Ramos fazem parte do desafio, com ou sem carro. Novas obras nada comprometidas com o transporte público, como o complexo viário Santa Terezinha,também fazem parte da rotina.
Muitas vezes, nos deparamos com sequências de acontecimentos que, em meio à correria diária, acabam ficando em segundo plano, com pouca ou nenhuma menção em nossos espaços cibernéticos. Recentemente, o Grande ABC ofereceu uma série de demonstrações em torno da mentalidade rodoviarista, que ainda predomina e reforça o triste diagnóstico da mais recente edição da Pesquisa Origem e Destino. A cobertura pouco crítica da imprensa local, que costuma ser ainda mais fraca do que os veículos sediados na capital, contribui para criar um clima de propaganda e normalização, sem suscitar grandes dores de cabeças às prefeituras.
Não falta nem mesmo clareza sobre a necessidade de seccionar linhas imensas e ineficientes como a 574J-10. Eu não fico plantado por uma hora numa esquina do Sacomã por mera ignorância em matéria de política pública: há quase uma década, o governo municipal sabe que precisa seccionar a linha, mas não age, talvez por se acovardar diante de possíveis apelos populistas (estes, sim, de uma imensa e egoísta ignorância).
Consequentemente, os motivos para buscar contornar um problema tão difícil de resolver são vários. Ora tento ser aceito pelos algoritmos e motoristas da 99, ora tento ser aceito por múltiplos sistemas de transporte público que produzem uma teia fragmentada e delicada de relações, geralmente, priorizando deslocamentos radiais do tipo centro-periferia.
É nesse estado de coisas que nasceram alguns de meus títulos favoritos, que talvez nunca serão transformados em artigos como este, mas que podem funcionar, desde já, como cápsulas de denúncia subjetiva:
- Travada e burra, São Bernardo estimula a caminhada na força bruta;
- Consumo local forçado: os mesmos restaurantes de sempre ou 1 hora no trânsito?;
- Entre o ruim e o péssimo: Kennedy, a ponte para duas facetas infernais do transporte intermunicipal.
Ou, meu predileto, que resume bem o que estou fazendo agora: “Criatividade defensiva: como a mobilidade marginalizada me fez um escritor melhor”.
E talvez seja isso! Entre o incômodo e a ironia, entre o carro via app e a rodovia Anchieta ou avenida dos Estados, entre a reprovação em Bases e a esperança de um dia não precisar mais desse trajeto, sobra o impulso de transformar essa rotina em linguagem.
O problema não é o deslocamento em si, mas ser forçado a andar em cidades feitas para não se andar, ou pior: que normalizam o tipo de deslocamento que preciso fazer como uma espécie de punição ou marcador de fracasso. É como se a natureza do deslocamento gritasse: “o tipo de relação que você está tentando nutrir deveria ser feita de carro”.
Saliento que as barreiras existentes não me impedem de admirar o entorno do campus da UFABC (Universidade Federal do ABC), mas impõem “escolhas”, sobretudo quando já passa das 21h, influenciando meu consumo e minha estratégia de retorno:
- Mesmo que eu fique saturado das opções gastronômicas locais, pode ser mais conveniente jantar por ali do que tentar preparar algo para comer no conforto da minha casa, cerca de 2 horas depois;
- Dependendo do caso, é mais fácil seguir caminhando em direção à avenida Lucas Nogueira Garcez e tentar embarcar na 152TRO, evitando o percurso pelo Rudge Ramos com a 153TRO;
- O contato com a Kennedy pode ser inevitável a partir de simples demandas domésticas, como comprar pães para a manhã seguinte, já que é praticamente impossível retornar à Zona Leste e encontrar uma padaria aberta;
- É fundamental não ter receio de penetrar o miolo entre as avenidas Kennedy e Senador Vergueiro, do contrário, o acesso à 153TRO acaba exigindo caminhar mais desnecessariamente;
- Ao contrário do que acontecia há alguns anos, não se pode contar mais com 154TRO, pois a atual operadora a sucateou em favor da 153TRO.
A lista acima não dá conta de uma década. Num passado recente, experimentei ainda uma série de estratégias envolvendo linhas do Corredor Metropolitano ABD e ainda as linhas 148TRO e 53. Digamos que os resultados não foram dos mais satisfatórios. Vou resumir meu relacionamento com a linha 53 na seguinte frase: “ela é tão ruim, que quando trabalhava em São Bernardo do Campo, eu preferia andar 6 km a pé e ainda chegava mais rápido”. Graças à operação rocambólica da 53, não há trólebus ou seletivo no Corredor ABD capaz de amenizar a frustração de precisar encará-la ao longo do trajeto.
Enfim, se há uma potência nisso tudo, é essa: a de escrever num ato de teimosia lúcida, talvez, como forma de buscar mais uma década de lucidez. Afinal, no fundo, a universidade nunca foi meu plano A, pois não estudo ou trabalho por prazer — acho que poucos podem encarar a vida assim —, mas por necessidade mediada por alguns ideais, incluindo um desejo bobo (e quase luxuoso) de melhorar a qualidade de vida na RMSP (Região Metropolitana de São Paulo).
Muitos quadrimestres (e salários irrisórios) depois, minha graduação, hoje, não passa daquele plano B que espero nunca precisar acionar, mas que, por algum motivo, continua aceso ali, como uma notificação não lida na vida adulta.
Se você ainda não acompanha o COMMU, curta agora mesmo nossa página no Facebook e siga nossa conta no Instagram. Veja também como ajudar o Coletivo voluntariamente.
comments powered by Disqus