Rodoviarismo

Criatividade defensiva: como a mobilidade marginalizada me fez um escritor melhor

Se você me vir xingando a 574J-10, já sabe: a disciplina de Bases Matemáticas voltou à minha rotina universitária. E, junto dela, voltou também o roteiro tragicômico que une a Vila Formosa, na Zona Leste paulistana, à avenida Kennedy, em São Bernardo do Campo, costurado por linhas que não se encontram, corredores que nem sempre existem e escolhas de transporte dignas de um teste de resistência. Legenda: Avenida Kennedy às 22h47 de 10 de março de 2025: ciclovia/pista de caminhada se destaca e oferece “tapete vermelho” em meio à arborização (à direita, está o Parque Raphael Lazzuri) Sim, voltarei a cursar a disciplina que persiste como um karma do meu ciclo acadêmico — e, como não poderia deixar de ser, isso envolve voltar a atravessar a metrópole de leste a sudeste com a leveza de um saco de cimento.

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As marginais de São Paulo e a negação da cidade

A Marginal Tietê não é somente uma rodovia. É uma sentença. Um rio de veículos ladeando um rio morto. Um dos piores cartões de visita urbanos do mundo — e, ainda assim, aceito. Aceito como destino, como funcionalidade, como cicatriz convertida em moldura. Entre o barulho incessante, o cheiro de diesel e a paisagem de galpões e concreto, o paulistano passa e repassa, todos os dias, pela prova viva de que sua cidade parece ter desistido. Não falta quem diga que exageramos ao falar em beijo da morte com o carro, entretanto, a imagem que se descortina é, no mínimo, apropriada: toda segunda-feira é um retrato em movimento do colapso que se tornou normal (em abril, São Paulo chegou a ter quase 1.300 km de congestionamento num único dia).

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Populismo antipedágio domina preocupações com nova concessão da Dutra

No início de junho, quando nosso membro João Vitor Reis trouxe uma reportagem da Folha de S.Paulo para discussão. Intitulada “MPF tenta adiar cobrança de multa de free flow na Dutra, e proposta gera preocupação em setor de tags”. Minha reação imediata foi apontar que seguimos com zero discussão sobre transporte público. Considerando quão tímidos seguem sendo a nossa imprensa e os outros atores relevantes, gostaria de retomar neste artigo os principais apontamentos das últimas discussões do Coletivo em torno da Rodovia Presidente Dutra (BR-116), concedida à iniciativa privada pelo governo federal na primeira metade de 2022 (notícia oficial), ainda sob o período bolsonarista. Figuras proeminentes do atual governo petista, entretanto, têm comemorado e ajudado a avalizar a concessão com frases como “a reforma da Dutra é Lula” (veja notícias aqui, aqui e aqui).

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Faraonismo rodoviarista continua drenando recursos no Grande ABC

Muitas vezes, nos deparamos com sequências de acontecimentos que, em meio à correria diária, acabam ficando em segundo plano, com pouca ou nenhuma menção em nossos espaços cibernéticos. Recentemente, o Grande ABC ofereceu uma série de demonstrações em torno da mentalidade rodoviarista, que ainda predomina e reforça o triste diagnóstico da mais recente edição da Pesquisa Origem e Destino. A cobertura pouco crítica da imprensa local, que costuma ser ainda mais fraca do que os veículos sediados na capital, contribui para criar um clima de propaganda e normalização, sem suscitar grandes dores de cabeças às prefeituras.

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Pesquisa Origem e Destino 2023: comentários preliminares

Introdução Este artigo está saindo com quase uma semana de atraso, mas considerando o comportamento infantilizado e baseado numa reatividade de extremo curto-prazo, quero frisar, desde já, que os resultados da última Pesquisa Origem e Destino são bastante preocupantes. Não consigo expressar quão preocupantes são, considerando principalmente a trajetória crítica que desempenho no Coletivo, os apontamentos presentes no relatório da pesquisa. A Pesquisa Origem e Destino é uma das mais tradicionais e completas em matéria de mobilidade, sendo um insumo relevante para o planejamento da operação e da expansão da rede metropolitana de transporte e, possivelmente, de alguns sistemas de caráter estritamente municipal que se entrelaçam com a rede sob responsabilidade do governo do estado.

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Sim, adensa e deixa congestionar

Prólogo Este artigo é produto de uma série de comentários elaborados em abril de 2024, envolvendo uma verdadeira “salada” de assuntos interconectados. Seu subúrbio não é especial Sobre a privatização do trecho mais conflituoso da rodovia Raposo Tavares (entre São Paulo e Cotia), com previsão de alargamento, desapropriações e cobrança de pedágio, é preciso coragem para afirmar: quem se opõe também contribuiu para semear o projeto que se aproxima. Quando o problema estava fora dos bairros afetados pela concessão, estava tudo bem. Pedágio na rodovia ditador Castello Branco? Ok. Pedágio no sistema Anhanguera-Bandeirantes? Manda bala. Pedágio na dupla Dutra-Trabalhadores? Excelente, principalmente na Dutra.

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São Paulo não está inchada! Por um Centro Expandido denso e acolhedor

No último domingo, 10, o Movimento Salve a Sena Madureira, bem como outros grupos ativistas, organizaram uma concentração na região da Praça Lasar Segall. Nosso membro e morador da região, Lucian De Paula, esteve presente e fez uma fala importantíssima sobre direito à moradia. Ver essa foto no Instagram Uma publicação compartilhada por Lucian De Paula (@lucian.dp)

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Subsídio às montadoras impulsiona narrativas abjetas no Twitter

Antes que qualquer um de nós conseguisse compreender profundamente as mudanças propostas para o plano diretor paulistano, o anúncio de uma política federal de incentivo a automóveis precificados em até R$ 120 mil, passou a bombardear nossas linhas do tempo na rede social do canário mimado. Apoiadores — e até mesmo alguns opositores! — do governo Lula passaram a defender a posse do automóvel, construindo espantalhos e generalizando situações pontuais para todo o Brasil. Além disso, o esgarçamento da heterogeneidade da ocupação brasileira, bem como um desprezo performático pela macrorregião Sudeste, contribuíram para a propagação de discursos bastante desonestos. Houve até quem reduzisse a importância do protagonismo da União para o desenvolvimento de nossas cidades, infraestruturas de circulação e sistemas de transporte público, automaticamente negligenciando marcos regulatórios relevantes, como o Estatuto da Cidade e o Estatuto da Metrópole.

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Alta dos combustíveis e a falta de consciência

É lamentável que a experiência adquirida com a implantação e operação de ônibus elétricos convencionais, por exemplo, não tenha nenhum papel relevante para ensejar propostas nas campanhas. O surgimento do Corredor Metropolitano ABD, que atende aos municípios de Diadema, São Bernardo do Campo, Santo André e São Paulo, é fruto de uma série de esforços envidados a partir da década de 1970, marcada pelos choques que ficaram conhecidos como crises do petróleo e, mesmo assim, parece não servir de exemplo, tanto com relação aos acertos, quanto com relação aos equívocos.

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Quem se importa com o transporte público na Região Metropolitana de São Paulo?

Ninguém se importa. A capital paulista elegeu uma gestão inócua no campo da mobilidade e só agora pode comemorar, após quatro anos, a inauguração de menos de 2 km de faixas exclusivas. A região metropolitana, fragmentada em quase 40 municípios, segue pouco coesa e poucos são os municípios realmente aproveitáveis em termos de política de mobilidade, mesmo que equivocada. Concessões de rodovias são renovadas, ampliadas ou celebradas sob o silêncio perturbador da ignorância e da indiferença. Renovações de contratos da malha ferroviária nacional, que hoje não passa de uma sombra constrangedora, ocorrem sem o devido escrutínio.

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