Crítica À Imprensa

Falar de mobilidade não é fazer propaganda

Muito da cobertura de mobilidade urbana não é nada mais do que uma coleção acrítica de comunicados (ou boletins, também comumente chamados de press releases ou releases de imprensa), ou seja, informações que são fornecidas para veículos de imprensa por um determinado ator da sociedade, seja ele público ou privado. Em outras palavras, a cobertura sobre mobilidade urbana costuma ser, na verdade, mínima, quase inexistente, limitando-se ao papel de mera reprodutora de mensagens alheias, sem apurar, sem criticar e sem enriquecer as informações.

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Mobilidade regional: mídia especializada não pode se limitar a entregar recados

Nos últimos dias, temos assistido a um verdadeiro tiroteio silencioso na arena da comunicação, no qual dois players tentam vencer, pelo disparo recorrente de releases de imprensa, a opinião pública e a disputa por espaço em blogues, jornais e outros veículos. De um lado, uma plataforma tecnológica e empresas de fretamento, do outro, o Estado e empresas tradicionais do transporte rodoviário de passageiros. Houve até uma manifestação envolvendo os primeiros, ocorrida na última quarta-feira, 28, com a circulação de ônibus rodoviários em importantes avenidas da capital. Dando nome aos bois, temos, de um lado, a Buser e as empresas de fretamento que operam mediadas por seus sistemas, do outro, a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo), Procuradoria Geral do Estado de São Paulo, Ministério Público do Estado de São Paulo e as empresas representadas pelo SETPESP (Sindicato Empresas Transportes Passageiros do Estado São Paulo). Em disputa, o direito de participar do mercado de viagens rodoviárias por ônibus, dentro e fora de São Paulo.

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Jornal mogiano cita pressão legislativa pela expansão da Linha 11. Premissas continuam rodoviaristas

O Diário de Mogi continua reciclando as baboseiras ditas em torno da expansão da Linha 11-Coral (Luz-Estudantes) até o distrito de Cezar de Souza, distante cerca de 5 km a leste do atual terminal da linha, construído na década de 1970. A edição de sábado passado, 24, pelo visto, não foi suficiente e novas reportagens baseadas na edição impressa de quinta-feira, 29, continuam sendo publicadas. Em uma delas, publicada em 30/10/2020 e assinada por Larissa Rodrigues (a mesma que revelou desconhecimento em torno da ciclovia da Marginal Pinheiros, na capital paulista), o lobby da vez mira nos deputados Marcos Damásio (estadual, PL) e Marco Bertaiolli (federal, PSD). Apesar de enaltecer o papel dos mandatários, o texto, porém, não aponta emendas ou fontes de recursos para o custeio da empreitada, similarmente, não há detalhes sobre as supostas ações em prol de Mogi das Cruzes.

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Jornal mogiano sai dos trilhos, minimiza desafios e volta a defender expansão da Linha 11 até Cezar de Souza

A edição de sábado, 24, d’O Diário de Mogi revelou um novo projeto gráfico, mudanças na periodicidade da versão impressa e uma capa anunciando um conjunto de reportagens especiais sobre a Linha 11-Coral (Luz-Estudantes) da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). As reportagens ocuparam quatro páginas, o que pode parecer pouco, mas para os padrões das mídias regionais da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo), é bastante coisa. Legenda: Diagrama recortando as linhas da CPTM que atendem a Zona Leste da capital e a Sub-região Leste da Região Metropolitana de São Paulo De cara, a adoção do termo “trem de subúrbio” pela repórter Carla Olivo, incomoda. Consideramos que sua utilização revela anacronismo e é incapaz de descrever os atuais serviços da CPTM, ademais, o termo resgata um paradigma de operação que jamais esteve preocupado em privilegiar deslocamentos internos. Esta postura obtusa do tabloide mogiano já foi motivo de crítica pelo Coletivo no passado. Chama a atenção que Cláudio de Faria Rodrigues, atual Secretário de Planejamento e Urbanismo, conforme exposto no box “Metrô de superfície” (p. 10), diferente do jornal, reconheça que a linha já faz papel de metrô:

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Desafios na expansão da Linha 11 até Cezar de Souza não passam de desculpas velhas e esfarrapadas, segundo jornal

O Diário de Mogi ataca novamente. Nas palavras de Darwin Valente, ausência de eletrificação e circulação de trens cargueiros são pequenos problemas para expansão da Linha 11-Coral (Luz-Estudantes) da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Para o colunista, que não estimou valores e muito menos parece ter consultado especialistas, tudo se resume a vontade política. Legenda: Diagrama recortando as linhas da CPTM que atendem a Zona Leste da capital e a Sub-região Leste da Região Metropolitana de São Paulo De partida, Valente omite o desafio de cruzar a movimentada Av. Manoel Bezerra Lima Filho, que conecta as faces sul e norte e está diretamente associada à rotatória vizinha ao terminal rodoviário. Hoje o cruzamento se dá em nível, mas a frequência dos trens cargueiros é extremamente baixa, por outro lado, o Trem Metropolitano da CPTM possui intervalo comparável a inúmeros sistemas metroviários, o que já enseja conflitos em outros pontos da cidade, notadamente no Centro Histórico e Tradicional, no qual a Prefeitura de Mogi das Cruzes enterrou (literalmente) 128 milhões de reais na forma de um complexo viário com túneis, além de gastar mais 4 milhões de reais na requalificação da Praça Sacadura Cabral, que basicamente desapareceu durante e depois da inauguração do novo viário — foram cerca de 5 anos com a praça desfigurada.

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Central Park e Ibirapuera, discursos por trás de comparações descabidas

No dia 13 de agosto de 2020, diversos membros do COMMU foram surpreendidos por um tuíte do editor da Veja São Paulo, que fazia uma estranha comparação entre o entorno do Central Park, em Nova Iorque, e o entorno do parque do Ibirapuera, na Zona Sul da capital paulista. Segundo Raul Juste Lores, 550 mil nova-iorquinos morariam a 10 minutos do parque, ao passo que apenas 6 mil paulistanos morariam nos 80 quarteirões localizados na cercanias do Ibirapuera:

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Ciclovia que tira espaço da CPTM vira pretexto para defesa de vias marginais expressas

Os fins não justificam os meios: rodoviarismo atrai rodoviarismo. Quando um grupo de arquitetos e ciclistas ignora o papel do transporte público, marginalizando a ele e a seus usuários, que até o momento não foram ouvidos, passa ser apenas uma questão de tempo até alguém aparecer pedindo mais asfalto, mais trânsito, mais carro. E este alguém, infelizmente, apareceu. Hoje, 2 de agosto, O Diário de Mogi, mais uma vez, demonstrou que não respeita a ferrovia e não está preocupado com quem dela depende. É lamentável encontrar, em pleno ano de 2020 e numa cidade que possui quatro estações da Linha 11-Coral (Luz-Estudantes) e inúmeras possibilidades de atrelar o desenvolvimento urbano e socioeconômico ao sistema metroferroviário, a insistência em ideias anacrônicas de vias marginais e vias expressas, pior ainda, redundantes.

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Folha de S.Paulo acerta em podcast e proporciona reflexões indispensáveis sobre transporte público

Contextualização Além do reforço positivo com relação à defesa de pedágio urbano e da priorização da circulação dos ônibus no sistema viário, gostaríamos de destacar uma edição recente do podcast Café da Manhã da Folha de São Paulo, que abordou o transporte público no pós-pandemia. O podcast, que logo de início se destaca por construir uma atmosfera semelhante àquela encontrada num ônibus lotado, foi permeado por reflexões e informações trazidas pelos repórteres Artur Rodrigues e Thiago Amâncio. A partir delas, este Coletivo gostaria de, humildemente, aprofundar e trazer outros pontos para enriquecimento de dois aspectos do debate.

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Campanha por ciclovia que retira espaço dos trens continua preocupante

Em 24 de julho de 2020 a repórter Larissa Rodrigues d’O Diário de Mogi lançou um texto com a seguinte manchete “CPTM cede faixas para ciclovia na capital”, que apesar de não ter saído no site do jornal até a publicação deste artigo, circulou pelas redes sociais, despertando mais uma vez a nossa preocupação. Foi a quarta reportagem em menos de uma semana (as anteriores foram “Secretários apoiam projeto para ciclovia entre César de Souza e Jundiapeba”, publicada no dia 23, e “Secretário aprova sugestão de ciclovia entre Jundiapeba e César de Souza”, publicada no dia 21).

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Folha de S.Paulo acerta ao publicar editorial que defende pedágio urbano e corredores de ônibus

O jornal Folha de S.Paulo publicou recentemente um editoral intitulado “O que a Folha pensa: transporte em crise”, no qual admite que o aumento recorrente de tarifas transfere o ônus dos operadores para a parcela mais necessitada da população: Para o longo prazo, a saída passa, antes, por uma pisada no freio dos incentivos ao transporte individual. Isso poderia começar, por exemplo, com introdução do pedágio urbano e ampliação decidida de corredores exclusivos.

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