Esquerda vive dilemas com símbolos das elites passadas

Por Caio César | 29/06/2025 | 4 min.

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Legenda: Adaptado de “Entrada do Edifício Triângulo, Emiliano Di Cavalcanti”. Local: Rua José Bonifácio, 24, Centro, São Paulo, SP. Data: 11/02/2011. Foto: André Deak/Arte Fora do Museu, Wikimedia Commons, licença CC BY 2.0
Preservação de obras de arte e recuperação de antigos edifícios outrora prestigiados esbarra na dificuldade de conciliação com as dores e agonias das populações periféricas e deixa rastro de ambiguidades. Afinal, a esquerda é chamada a ser guardiã do patrimônio apodrecido e problemático que foi largado à medida que a riqueza se reproduzia em outro lugar ou deixava de existir?

O texto sobre o Edifício Guarany, ao mencionar a obra de Di Cavalcanti no Edifício Triângulo, abre uma brecha para uma discussão mais objetiva em torno da contradição entre preservação e acúmulo de capital cristalizado no passado.

Tomemos, mais uma vez, a seguinte publicação do vereador paulistano Nabil Bonduki (PT):

Legenda: Apelo em torno do restauro de obra de arte no Edifício Triângulo, projetado por Oscar Niemeyer. Clique aqui ou na imagem para acessar a publicação no Instagram do vereador Nabil Bonduki (PT)

Começo com uma provocação: quando o edifício foi erguido, num momento distinto da acumulação de capital no local, e do qual ele é produto direto, pois representa uma forma de cristalização dessa acumulação, o poder público pagou pelos mosaicos?

Não pagou, não é mesmo?

Ora, o apelo de Nabil, embora justificado pelo caráter histórico e valor artístico de uma peça que não pode ser restaurada trivialmente pelos atuais ocupantes do imóvel, parece um perfeito exemplo da dupla moral que persiste quando o Centro de São Paulo é colocado no centro de algum debate em torno da preservação da cidade, principalmente para um tipo de preservação que será “consumido pelos olhos”.

Parece que há uma parcela da sociedade que quer os símbolos do capital, mas rejeita as pessoas intimamente ligadas com qualquer processo que levou ao surgimento em primeiro lugar. Aliás, a rejeição de pessoas parece ser constante em São Paulo, já que o acúmulo de capital é marcado no tempo e no espaço tanto por comportamentos segregacionistas, quanto pelos efeitos do arrasto de massas falidas de atividades pré-acumulação flexível, como complexos industriais (caso do Guarany, diga-se de passagem).

É o conflito entre um "conteúdo popular" que vive sendo tokenizado para discutir a porção mais central e antiga da capital paulista e as pressões estéticas e simbólicas contraditórias, que também aparecem ao reivindicar outro protagonismo para o mesmo território.

Para nosso membro Eduardo Ganança, o caso do Edifício Triângulo é peculiar, pois o Largo da Misericórdia parece ser um ponto descolado no momento, o que abre espaço para suspeitarmos de que a crítica de Nabil é, por si só, um desdobramento do processo de enobrecimento em curso. Sem dúvidas, uma outra provocação possível.

Ora, São Paulo tem tanto um tipo de patrimônio com certo valor arquitetônico e cultural, mas que apresenta um pano de fundo recorrentemente ignorado, lastreado em certos capitais fáceis de serem desconectados da paisagem, uma vez que não se reproduzem mais, quanto quem habita a região hoje e os outros tipos de relações funcionais que surgiram após o esvaziamento, ou melhor dizendo, a fuga de capitais acompanhada de substituição populacional.

Arriscando alguma aspereza, embora seja "gratuito" o conhecimento acerca de mosaicos, jardins e outras obras de arte associadas a imóveis centrais com a assinatura de algum arquiteto famoso, suspeito que muitos dos frequentadores e moradores do Centro simplesmente não se importem em saber. É triste, mas é uma possibilidade (que eu creio ser muito provável).

Por isso que é complicado falar em “gentrificação”: o que acabamos chamando de gentrificação aqui ou acolá é, concretamente, um processo de mudanças no tecido social. E daí vemos as ambiguidades: queremos o produto 'x', que depende dessas mudanças, mas não aceitamos as mudanças; queremos uma valorização arquitetônica que exige moradores com capacidade e disposição para fortalecer tanto o poder de lobby do condomínio, quanto o caixa, mas não aceitamos essa troca.

Como já argumentado em diferentes momentos na trajetória deste Coletivo, o ideal é ter diversidade nos territórios, não concentrações absurdas, contudo, é aí que perdemos a mão como sociedade. As boas intenções do campo progressista, apesar de louváveis, continuam repletas de contradições e violências.

Em tempo, acredito que nem eu, nem ninguém do Coletivo, seja contra reformar as obras de arte, na verdade, eu ficaria feliz se tivéssemos mais seriedade na montagem de circuitos e estratégias de preservação e fomento. O caso da cinelândia ao redor da Praça da República é emblemático e transborda negligência e incapacidade de preservação com retenção funcional e diversidade de usos e rendas.

Legenda: Painel em afresco sobrevive nas ruínas do Cine Paissandú, que tem sido utilizado como estacionamento. Esquecida, arte retrata danças tradicionais do Brasil. Clique aqui ou na imagem para acessar a publicação no Instagram do Soberano

Não que o caso da cinelândia, assim como tantos outros, seja óbvio. No caso do Edifício Triângulo, aposto que não há, não houve e não haverá uma plaquinha na porta do edifício para destacar sua importância. São Paulo sempre foi péssima em comunicação e orientação na escala do pedestre, como se buscasse ser uma cidade hostil e difícil de ser decifrada.

Finalmente, se tem uma coisa que evita a gentrificação, é estimular ou ser leniente com o empobrecimento e a concentração de pobreza, levando ao surgimento de guetos, ou seja, pobreza estigmatizadora e potencialmente confinadora, com forte demarcação em torno de grupos bem definidos. Há quem confunda pobreza concentrada a partir de uma visão extremamente rasa sobre sobrevivência (ou resistência, para usar um termo bastante saturado). Resta saber se queremos os efeitos colaterais e teremos capacidade de navegar em meio às ambiguidades.


Colaborações: Eduardo Ganança (interlocução)



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