Redes Sociais

Preguiça, alucinação e distorção: uso indiscriminado de IA emporcalha o debate

Nos últimos meses, tenho observado um fenômeno preocupante: a utilização indiscriminada de modelos de IA (“inteligência artificial”, sim, com aspas) para produção de ilustrações fotorrealistas e infográficos. Os resultados, que eu suspeito serem tratados como “bom o suficiente” pela maioria do público-alvo, são deprimentes. Graças à utilização eticamente irresponsável de novas tecnologias, cujos efeitos e impactos a longo prazo ainda desconhecemos, um punhado de indivíduos pode bombardear redes sociais com imagens mentirosas e exageradas sobre a realidade que se propõem a transformar. O tom, apesar de dramático, é profundamente vazio.

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As cortinas transparentes do teatro da teimosia

Na semana que se passou, tivemos dois pequenos dramas de classe média no microscópico círculo que mescla urbanismo, política e cinismo — um círculo onde o comportamento NIMBY (Not In My Backyard) encontra abrigo em vocabulário progressista: moradores que se opõem a projetos de adensamento em suas vizinhanças, mesmo reconhecendo a necessidade deles em outros locais. Primeiro, Nabil Bonduki continuou sua epopeia em torno das esvaziadas galerias comerciais da rua Augusta; segundo, uma série de figuras, incluindo nomes como Miguel Falabella e a revista Veja São Paulo, choraram por um teatro que não havia sido demolido, com base numa dramatização renderizada com auxílio de inteligência artificial.

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A cidade não cabe no sobrado

Introdução No final de outubro, Vicente Vilardaga, em sua coluna “Andanças na metrópole”, publicada pela Folha de S.Paulo, escreveu artigo intitulado “Os problemas causados pela verticalização desenfreada em São Paulo”. Infelizmente, aprendi que, no ativismo, não basta defender um ideal, é preciso defendê-lo de infinitas maneiras e infinitas vezes. Nada do que direi a seguir é uma novidade, mas talvez apresente uma roupagem diferente, capaz de contribuir positivamente para um debate que, com o perdão da franqueza, tem se perdido na romantização de paisagens bastante específicas.

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Paralisia e a cidade contra a cidade

Contextualização Nos últimos meses — ou seriam anos? —, tenho observado padrões preocupantes e saturado meus companheiros deste Coletivo com mais ou menos os mesmos assuntos, ainda que a roupagem pareça diferente num ou noutro momento. Como todo trabalho voluntário, o que faço aqui acaba entrelaçado com a minha vida, não se resumindo meramente a trabalho (de campo, de produção textual, fora momentos torturantes à frente do Instagram). Na maior parte do tempo, eu também lido com decisões difíceis, às vezes, paralisantes.

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Raça, urbanismo e o tabu brasileiro

Introdução Nos Estados Unidos, é comum que o debate urbano associe nimbysmo e raça: redlining, white flight, zoneamento excludente. Textos no New York Times (aqui e aqui, por exemplo) ou The Atlantic (aqui e aqui, por exemplo) tratam abertamente de como a segregação urbana e a racial se entrelaçam. No Brasil, essa associação permanece um tabu nas escassas discussões sobre cidades. Preferimos falar em “preservação do verde”, “patrimônio” e “modos de vida”, contudo, o resultado é o mesmo: exclusão de populações pobres e, não raramente, racializadas, dos centros urbanos.

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A torre, o chilique e o colapso: elites, escassez e a farsa do equilíbrio urbano

Legenda: Anúncio de novo empreendimento imobiliário no Instagram (acima, em destaque, grifos do autor) e comentários negativos, um deles embalado na hashtag #ChegaDePrédios. Clique na imagem para abri-la e ampliá-la Começo provocando: ao contrário da desgastada linha argumentativa que, mais uma vez, ressurge na forma de crítica a um empreendimento imobiliário que não surpreende pela sua proposta ou localização, a cidade tem estrutura. O que ela não comporta é estupidez.

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Esquerda vive dilemas com símbolos das elites passadas

O texto sobre o Edifício Guarany, ao mencionar a obra de Di Cavalcanti no Edifício Triângulo, abre uma brecha para uma discussão mais objetiva em torno da contradição entre preservação e acúmulo de capital cristalizado no passado. Tomemos, mais uma vez, a seguinte publicação do vereador paulistano Nabil Bonduki (PT): Legenda: Apelo em torno do restauro de obra de arte no Edifício Triângulo, projetado por Oscar Niemeyer. Clique aqui ou na imagem para acessar a publicação no Instagram do vereador Nabil Bonduki (PT) Começo com uma provocação: quando o edifício foi erguido, num momento distinto da acumulação de capital no local, e do qual ele é produto direto, pois representa uma forma de cristalização dessa acumulação, o poder público pagou pelos mosaicos?

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Luxo decadente e a despolitização na preservação de símbolos de uma burguesia em ruínas

Introdução Ao me deparar com discussões como a do episódio “Pioneiro e Solitário”, do canal São Paulo nas Alturas, de Raul Juste Lores, sempre termino achando que tem faltado um direcionamento de esforços mais cuidadoso nas fileiras do campo progressista, que tem se colocado como aliado de um punhado de famílias com musculatura financeira suficiente para morar nos bairros mais nobres do Centro Expandido. Legenda: Vídeo do canal São Paulo nas Alturas, traça comparações entre dois edifícios pioneiros, em São Paulo e Nova Iorque, para discutir questões ligadas ao Centro e ao Parque Dom Pedro II. Clique aqui para acessar o vídeo no YouTube Tais famílias, organizadas em associações de moradores, buscam recorrentemente pretextos para preservar privilégios, o que se traduz, majoritariamente, em impedir transformações na paisagem, como aquelas que aumentam a oferta de unidades a partir de construções novas e mais verticais. Vídeos que tratam de áreas antigas da cidade são excelentes para reflexões sobre como a realidade, transportada para argumentos e narrativas nem sempre honestas, pode sofrer distorções para filtrar quem pode enriquecer e a partir de quais práticas de consumo e acumulação. Assim, mais do que preocupações com as prioridades do campo progressista, tento combater uma certa ingenuidade na discussão da cidade a partir da arquitetura dos edifícios.

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Populismo antipedágio domina preocupações com nova concessão da Dutra

No início de junho, quando nosso membro João Vitor Reis trouxe uma reportagem da Folha de S.Paulo para discussão. Intitulada “MPF tenta adiar cobrança de multa de free flow na Dutra, e proposta gera preocupação em setor de tags”. Minha reação imediata foi apontar que seguimos com zero discussão sobre transporte público. Considerando quão tímidos seguem sendo a nossa imprensa e os outros atores relevantes, gostaria de retomar neste artigo os principais apontamentos das últimas discussões do Coletivo em torno da Rodovia Presidente Dutra (BR-116), concedida à iniciativa privada pelo governo federal na primeira metade de 2022 (notícia oficial), ainda sob o período bolsonarista. Figuras proeminentes do atual governo petista, entretanto, têm comemorado e ajudado a avalizar a concessão com frases como “a reforma da Dutra é Lula” (veja notícias aqui, aqui e aqui).

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Mentir falando a verdade: Dirley Terracasa e a rua Francisco Aquarone

Em uma recente entrega algorítmica do Instagram, pude apreciar mais um exemplo de apelo problemático em torno da preservação de conjuntos de casas em áreas centrais extremamente bem servidas de infraestrutura. Confesso que o caso não é dos piores, como perfeitamente sintetizou Tiago de Thuin ao apreciar meu compartilhamento em nosso grupo no Telegram: “essa rua merece mais tombamento do que a média que a gente vê por aqui, mas ainda não merece”.

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