Por Caio César | 20/07/2025 | 5 min.
#ChegaDePrédios. Clique na imagem para abri-la e ampliá-la
Começo provocando: ao contrário da desgastada linha argumentativa que, mais uma vez, ressurge na forma de crítica a um empreendimento imobiliário que não surpreende pela sua proposta ou localização, a cidade tem estrutura. O que ela não comporta é estupidez.
Não falta asfalto, água tratada ou coleta de esgoto no miolo de Pinheiros. Falta coragem de nomear o incômodo real: a quebra do pacto simbólico da exclusividade. A urbanização do entorno foi pensada para abrigar elites. Mas não previu o emburrecimento dessas elites. O edifício não ameaça a cidade: ameaça o imaginário de pureza fundiária que parte de seus moradores acredita ter direito de manter para sempre, numa eternidade que congela o tempo e o espaço numa espécie de distopia.
A histeria, afinal, não é urbanística, é estética e ideológica. É cansativo se deparar com mais uma dose de chilique em rede social para um empreendimento com assinatura da Pininfarina que é vizinho de uma imensa zona morta de mansões. É como se esse edifício se instalasse ao lado de certos condomínios da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo) — com a diferença de que nenhum deles captura o marco regulatório de maneira tão perversa: ali no Jardim Europa, os muros estão na lei.
O problema não é verticalizar, muito pelo contrário. O problema é que boa parte da crítica à verticalização serve de verniz para a defesa da escassez artificial. São vozes que se dizem anti-especulação, mas são apenas pró-escassez. Ser anti-especulação de verdade é ser a favor de falências e ruína patrimonial, simbólica e tangível, com o colapso do atual regime de preços. Especulação combatida termina assim: com ativos despencando e gente despencando junto na pirâmide social.
Enquanto isso não acontece, seguimos presos num discurso moralista sobre o "bom uso do solo" que, na prática, só protege o status quo. 99% das vezes em que se fala em coibir o assédio das construtoras, o que se quer é apenas mais valorização por m². Discutir adensamento, tanto construtivo quanto habitacional, bem como diversidade, tanto de usos quanto de rendas, sempre fica em segundo plano. Fica a proposta: que tal se, por outro lado, nos uníssemos para que o m² valha menos do que acham que vale, sustentando a defesa de bairros moralmente questionáveis? Se assim fosse, só haveria uma opção, consequentemente: mudar a estrutura do próprio patrimônio antes que ele derreta.
Claro que não se trata apenas de construir mais. É preciso impedir que a produção caia na armadilha da concentração patrimonial. Produzir sem democratizar a propriedade só faz alimentar um ciclo de valorização que empurra a cidade para longe da sua função pública. Não à toa, a crítica mais profunda deve mirar na estrutura patrimonial, rompendo com discussões teatrais e caçadoras de virtude que se limitam à estética do concreto.
Motivação Os chamados “predinhos” se transformaram numa espécie de “produto validado” para progressistas endinheirados que buscam localização estratégica, como bairros centrais com boa oferta de empregos e amenidades, com forte diferenciação em relação às classes médias e altas. O desejo (ainda que velado) de exclusividade e filtragem socioeconômica robusta é ofuscado pela tentativa de convencimento (próprio ou auxiliado pelo mercado) de que tudo não passa da busca por uma relação charmosa entre pessoas e cidade, uma versão de aço e concreto da “gastronomia afetiva” que superfatura cafés e torradas no “bairro nobre” mais próximo de você.
Por isso, é tão frustrante ver o Legislativo e até parte da esquerda completamente perdidos em sua (in)capacidade técnica. No âmbito das capacidades estatais da prefeitura paulistana, o GeoSampa já tem todos os antídotos para a letargia: área de terreno, área construída, zoneamento. Só aí já seria possível iniciar a geração de uma lista robusta de imóveis ociosos, principalmente com acesso a ortofotos, dados fazendários e de consumo de água e energia elétrica. Cadê os gabinetes com gente capaz de “cruzar quatro colunas” e estruturar denúncias? Quando tudo não vira justificativa para a contratação de consultorias que parasitam o Estado, se perde no trabalho manual de uns poucos indivíduos que ainda encontram forças para iniciativas isoladas.
Ora, já temos duas soluções de graça, sem consultorias ou concursos mirabolantes: (i) uso de dados públicos para sistematização de imóveis passíveis de PEUC (Parcelamento, Edificação e Utilização Compulsórios); e (ii) mapeamento de terrenos via geoprocessamento. Se tivéssemos gente com vontade de ir além, haveria ainda a possibilidade de criar um sistema de classificação automatizada de fachadas via aprendizado de máquina. Opa, agora temos três soluções! Infelizmente, nada disso ganharia tração, porque nossa cultura legislativa é como o Windows: tudo fechado, tudo em caixa preta; precisávamos de “mais Linux”: mais processos abertos, mais cultura de bazar.
Finalmente, sim, é hora de discutir o Plano de Habitação. Sempre é. Mas não dá para tratá-lo como uma lista de boas intenções no capítulo final das diretrizes! Cada ação precisa amarrar mobilidade, saúde e planejamento climático. Cada política precisa reconhecer que o problema não é apenas de produção, mas de concentração.
Nenhum edifício, por mais alto que seja, jamais causou tanto dano quanto um pedaço de cidade reservado à fantasia de uma elite emburrecida e que continua sendo idolatrada por quem cava a própria expulsão dos bairros que supostamente defende.
Não falta cidade nem infraestrutura. Falta vergonha.
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