Por Caio César | 28/11/2025 | 4 min.
Falhas na Linha 11-Coral (Palmeiras·Barra Funda-Estudantes) são velha conhecida da população que depende da principal ligação entre a região central da capital paulista e uma série de municípios do Alto Tietê. A falha que teve início em 25 de novembro, persistindo ao longo do dia seguinte, porém, merece algumas reflexões adicionais.
Em virtude do programa de desestatização do governo paulista, a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), responsável pela linha ainda sob a Secretaria dos Transportes Metropolitanos, passa por fuga de cérebros e de mão de obra, seja pelas ofertas de vagas das novas operadoras privadas, seja pelo programa de demissão que incentiva a saída de quadros. É sabido que mais de quatro mil indivíduos poderiam ser elegíveis para o programa, porém a participação, que poderia ocorrer até maio deste ano, permanece desconhecida publicamente.
Qual é a capacidade concreta de recuperação de falhas da atual CPTM? A defasagem do quadro funcional piorou? Psicologicamente, as pessoas funcionárias preservam o mesmo nível de tranquilidade pré-concessões?
Com a cobertura exígua a respeito do tema, não sabemos nem mesmo como ficou a situação da Linha 7-Rubi, assumida recentemente (em 26 de novembro), pela concessionária TIC Trens, que já vinha adesivando trens com suas cores. Quanto do quadro é originário da CPTM? A concessionária consegue garantir que a maioria tenha experiência ou, no mínimo, um treinamento extenso, como aquele aplicado pela estatal em frangalhos?
Em questão de meses, a concessionária Trivia Trens assumirá um dos subsistemas mais delicados de toda a malha do Trem Metropolitano. Como garantir a devida capacidade de manutenção, ainda no primeiro mês da concessão? Caso a população se revolte ao longo dos 30 anos de concessão (que poderá ser renovada, ampliando sua duração), quais seriam as garantias de reconstrução, caso trens e estações sejam destruídos?
Ninguém parece saber. Nada do que estamos apontando tem respostas disponíveis a poucos cliques de distância. Ainda assim, todas as perguntas são extremamente básicas.
O que se evidencia, mais uma vez, é uma preocupante seletividade. A imprensa oferece somente comentários superficiais, abandonando práticas investigativas essenciais para o bom jornalismo; a sociedade civil organizada, altamente cindida, revela absurda concentração de influência política e renda, produzindo uma verdadeira geografia da representatividade eleitoral e da capacidade de mobilização (na qual os trens, obviamente, não são criticados por pessoas influentes); e, finalmente, associações setoriais e de classe preferem o silêncio confortável da profunda omissão.
E não para por aí! A Linha 11, por si só, é palco de uma imensa dívida entre poder público e população. Como abordado por este coletivo no passado, o desafio dos transportes metropolitanos exige uma nova hierarquização dos serviços, demandando investimentos muito além daqueles previstos nos contratos de concessão. A Linha 11, como a maior ligação de todo o Leste metropolitano, expõe o drama da cidade invertida: longos deslocamentos, com periferias densas em detrimento a centralidades pouco populosas.
Contextualização Recentemente, duas notícias preocupantes foram publicadas pelo site Metrô CPTM: a primeira delas, voltada para o futuro TIC (Trem Intercidades) para Campinas, aponta que o governo deve descartar a necessidade de construção de pátios de manutenção pela iniciativa privada, aumentando a pressão sobre os pátios da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos); já a segunda notícia aponta uma curiosa mudança de planos, na qual o TIC para São José dos Campos seguiria pelo leito da Linha 11-Coral (Luz-Estudantes), a mais movimentada da CPTM, até desenvolver um traçado segregado em Mogi das Cruzes, supostamente utilizando a Variante do Parateí para chegar até a Estação São José dos Campos.
Não por acaso, a discussão em torno do mercado imobiliário é tão importante: a Linha 11 é um espelho da hiperperiferização que se consolidou ao longo de muitas décadas. As populações da Zona Leste e do Alto Tietê não podem continuar passando sufoco enquanto visões elitistas distorcem o Centro Expandido.
Continuar priorizando quem mora em Pinheiros, enquanto quem ali trabalha (e constrói efetivamente o bairro) é ignorado, nunca fez menos sentido do que agora. Concessões e a absurda extensão da mancha urbana, sozinhas, deveriam estar acendendo um grande sinal de alerta em nossa consciência. Alguém precisa de mais alguma justificativa? O custo de morar em São Paulo já não está suficientemente exorbitante?
O maior eixo metropolitano do Leste funciona no limite enquanto governo, imprensa e sociedade civil evitam perguntas básicas.
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