Por Caio César | 25/01/2026 | 5 min.
Na semana que se passou, tivemos dois pequenos dramas de classe média no microscópico círculo que mescla urbanismo, política e cinismo — um círculo onde o comportamento NIMBY (Not In My Backyard) encontra abrigo em vocabulário progressista: moradores que se opõem a projetos de adensamento em suas vizinhanças, mesmo reconhecendo a necessidade deles em outros locais.
Primeiro, Nabil Bonduki continuou sua epopeia em torno das esvaziadas galerias comerciais da rua Augusta; segundo, uma série de figuras, incluindo nomes como Miguel Falabella e a revista Veja São Paulo, choraram por um teatro que não havia sido demolido, com base numa dramatização renderizada com auxílio de inteligência artificial.
Nos dois casos, que levei para discussão com o núcleo duro deste Coletivo, diria que faz sentido questionar o descolamento entre a materialidade (os elementos concretos da realidade), e a idealização (a realidade distorcida a partir daquilo que queremos que ela seja, mesmo que, para tanto, neguemos ou minoremos lastros materiais).
Os comentários nas redes (e o próprio comportamento da redação de Veja São Paulo e de artistas como Falabella), foram e, provavelmente, continuarão sendo um poço da mais pura contradição: há notável apreço pela estética, mas como parte de um comportamento que desterritorializa e a dissocia daquilo como negócio no capitalismo e na paisagem.
A Galeria Flórida foi transformada no ingrediente de um sonho. Tratada não como elemento tangível da cidade — um negócio que depende de consumo para se perpetuar —, mas como uma coisa bonita que, aparentemente, ninguém quer frequentar. Quem nos lê deveria se preocupar com outro ponto, mesmo ponderando fatores históricos e arquitetônicos: tanto o Procópio Ferreira quanto a Flórida ocupam lotes monofuncionais de baixo gabarito em plena Augusta.
À imprensa, como a Veja São Paulo, cabe um maior escrutínio a partir da coleta de factoides embalados por comentários carregados de emoções em uma ou mais redes sociais. “Reprodução” não é um identificador adequado. Em nome da transparência, caberia aos jornalistas envolvidos: (i) destacar a origem da imagem a partir do contato que tiveram com ela; (ii) apontar se identificaram a presença dela em outros locais e se entraram em contato para entrevistar responsáveis pelos veículos/páginas/perfis, de forma a tentar identificar a origem e (iii) visitar o local dramatizado antes de qualquer conclusão precipitada ser publicada.
Tokenizar um teatro fechado desde o final de 2025 não muda a irônica teatralidade do negacionismo e do egoísmo que saturam as poucas discussões sobre cidades que adotam São Paulo como palco: o teatro perdeu relevância e se transformou em memória antes mesmo de ser fechado. Forçar a barra com auxílio de inteligência artificial só desloca a burrice orgânica para outra dimensão, mas ainda continua sendo burrice.
Galerias como a Flórida, caso não sejam efetivamente frequentadas e integradas como parte da vida de quem as defende, seguirão pelo mesmo caminho. O valor simbólico de defender a fachada no Instagram não substitui o valor de uso de frequentar o lugar. Talvez precisem de mais público do que consumo militante, justamente para contarem com uma demanda menos artificial.
O texto sobre o Edifício Guarany, ao mencionar a obra de Di Cavalcanti no Edifício Triângulo, abre uma brecha para uma discussão mais objetiva em torno da contradição entre preservação e acúmulo de capital cristalizado no passado. Tomemos, mais uma vez, a seguinte publicação do vereador paulistano Nabil Bonduki (PT): Legenda: Apelo em torno do restauro de obra de arte no Edifício Triângulo, projetado por Oscar Niemeyer. Clique aqui ou na imagem para acessar a publicação no Instagram do vereador Nabil Bonduki (PT) Começo com uma provocação: quando o edifício foi erguido, num momento distinto da acumulação de capital no local, e do qual ele é produto direto, pois representa uma forma de cristalização dessa acumulação, o poder público pagou pelos mosaicos?
A discussão moral falha não por causa da selvageria do mercado imobiliário, mas pelas contradições que ninguém parece querer admitir. Algumas hipóteses sobre o que enfraqueceu a Augusta como destino de consumo:
- O protagonismo da Avenida Paulista como centralidade é relativizado à medida que outros eixos viários também receberam negócios e produziram relações funcionais similares do ponto de vista da geração de empregos e atração de viagens;
- A Rua Augusta, como elemento articulador transversal à Avenida Paulista e, mais amplamente, como parte do mesmo eixo viário da Avenida Europa, está diretamente conectada com padrões de consumo que dependem de enclaves de alta renda (como os bairros ajardinados nas proximidades) e da existência de população fixa e flutuante com poder aquisitivo e motivação suficientes, as quais não necessariamente habitam enclaves de alta renda;
- A sofisticação e a amplificação do consumo em shoppings centers que privilegiam proprietários de veículos automotores criou condições para enfraquecer antigas galerias voltadas ao consumo feito a pé, além de modificar a concentração de atividades.
Provocação final: quando o cinismo é deixado de lado, fica mais fácil admitir que consumir na Augusta talvez não seja mais tão sedutor quando consumir num shopping center, bem como que a avenida não é mais um nome recorrente na cidade, pois passou a ser parte de um campo de influência que sofreu diluição com o surgimento de avenidas como Faria Lima, Berrini, Chucri Zaidan e, até mesmo, polos de gastronomia e negócios fora da geografia da riqueza hegemônica, como Alphaville, em Barueri e Santana de Parnaíba, e Tatuapé, numa porção da Zona Leste que já perdeu quase que completamente suas feições operárias e fabris.
No fundo, estamos diante de um grupo de indivíduos que tropeça ao sugerir manter o cenário intocado naquilo que enxergam como o próprio quintal, mesmo que nunca entrem nele.
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