É claro que o Serviço 710 foi para o vinagre! Pelo fim da amnésia eleitoral

Por Caio César | 28/08/2025 | 8 min.

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Legenda: Estação Tamanduateí do Trem Metropolitano em outubro de 2024
Nada além de mais um texto ácido dizendo o óbvio: não nos respeitamos como humanos, não nos colocamos como prioridade na disputa política, não levamos eleições a sério e continuamos nos surpreendendo quando tudo dá errado

A princípio, estava relutante em escrever sobre o melancólico fim do Serviço 710, responsável por oferecer uma operação unificada das linhas 7-Rubi (na altura, Jundiaí-Francisco Morato-Brás) e 10-Turquesa (então, Brás-Rio Grande da Serra). Relutei não por não achar relevante, mas por achar cansativo.

Legenda: Detalhe de diagrama do Serviço 710 na plataforma com destino a Francisco Morato/Jundiaí, na Estação Tamanduateí. Retrato do passado. Fotografia de outubro de 2024

Não há novidade em mais um ataque contra a população usuária, que tem seu bem-estar refém de arranjos privatizantes que unem os governos estadual e federal. Aliás, não há, nem mesmo, solidariedade. Como boa parte das causas ligadas à maioria do povo, o Serviço 710 passou em branco. Foi ignorado, marginalizado, trivializado.

A CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) está, apesar da ironia do novo site que ostenta enquanto escrevo, sendo extinta. Não é sobre a linha ‘X’ ou ‘Y’, é sobre o fim de uma política de bem-estar social tucana, cheia de contradições e limites. Política esta que já está na antessala da saudade.

Em meio à privatização da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), tenho me perguntado se há muito mais o que cobrir criticamente para o Coletivo. À medida que os contratos de concessão são celebrados, temos uma noção mais ou menos clara em torno dos investimentos futuros. Como já apontado por mim no âmbito deste Coletivo, o histórico sugere uma redução nos investimentos: média irrisória de R$/ano e ausência de grandes obras de infraestrutura, mesmo algumas intuitivamente necessárias, como a expansão da Linha 13-Jade (Eng.

Não estamos falando de um ou dois anos de baixa adesão à pauta, apesar das investidas frequentes de diferentes grupos ou indivíduos, com diferentes estratégias e capacidades. Estamos falando de mais de uma década, na qual os trens continuaram sendo tratados como uma sombra irrelevante de uma vida majoritária: a vida da maioria.

A vida da maioria não importa agora, não importou antes e não importará amanhã. Não existe nada e nem ninguém que demonstre capacidade política para mudança de rumo: a população votou em um conjunto de indivíduos que, agora, promove o desmonte sob um arcabouço ideológico questionável. É fato, não é invenção. Tarcísio (Republicanos) não governa a esmo: foi eleito, conta com tranquila maioria na Assembleia Legislativa e, ainda por cima, segue bem avaliado!

A população elegeu um Legislativo reacionário no estado e na União. A população elegeu um governador extremista e capacho de figuras execráveis da extrema-direita traidora da pátria. Eu preciso desenhar ou explicar mais alguma coisa? Não preciso.

Teremos sorte se a futura concessionária da Linha 7-Rubi não agir com negligência e incompetência. Preocupação esta que, eventualmente, ganhará concretude na ponta oposta da antiga Santos-Jundiaí, quando a Linha 10-Turquesa for concedida em conjunto com uma já desfigurada ligação perimetral entre Guarulhos e o Grande ABC.

A questão não é a transferência em Palmeiras·Barra Funda, tal como simplificado em alguns cantos da Web. A questão é a persistência de gargalos históricos no eixo Lapa-Brás, os quais permanecem sem resolução no desdobramento dos fatos! O governo Tarcísio de Freitas pode gritar aos quatro ventos que a estação foi transformada num hub (ou seja, numa estrutura concentradora ou integradora). Tanto faz. É uma distração. Outro pega-trouxa.

A concessão saiu antes da resolução dos gargalos. A resolução dos gargalos, tal como proposta, fatiada em contratos garantistas que um sujeito irrelevante tenta decodificar na Zona Leste, ameaça uma longa trajetória de planos e propostas, sem discussão pública ou cobertura jornalística que se preze.

Barra Funda, Brás, Luz. Todas são hubs. E daí? A conversa não é ou nunca foi sobre o papel de uma estação isolada e de intervenções amesquinhadas, com puxadinhos e adaptações ao sabor do idiota da vez no Palácio dos Bandeirantes.

A questão é sobre o racismo e o preconceito estruturais de governos paulistas que tratam trens com desdém, com ampla facilitação por um progressismo vagabundo, de quinta categoria, que não consegue tirar os olhos do café gourmet em bairros absolutamente superestimados do Centro Expandido.

A esquerda foi omissa, ridícula, caquética. Pronunciamentos tardios e desinteresse genuíno marcaram não só as manifestações mais recentes, algumas delas republicadas por nós em redes doentes, como o Instagram, mas uma década inteira. Uma década de cegueira profunda!

Desculpe, mas não existe nenhuma ponte a preservar. Nunca existiu. Quem destruiu a ponte, para começo de conversa, foi a oposição elitista e arrogante, que não tem capacidade de pensar nos trens. Não tem agora, não teve ontem, não terá amanhã, a menos que mude de postura. A ponte foi dinamitada há muito, muito tempo mesmo.

Quando a oposição ignora que um banco ligado ao governo petista é cúmplice do desmonte, ela está sendo vagabunda e desonesta, além de se posicionar à direita, traindo a classe trabalhadora. O trenzinho para Campinas foi objeto de múltiplas campanhas publicitárias do PT (Partido dos Trabalhadores). Não esqueceremos!

Contextualização Recentemente, duas notícias preocupantes foram publicadas pelo site Metrô CPTM: a primeira delas, voltada para o futuro TIC (Trem Intercidades) para Campinas, aponta que o governo deve descartar a necessidade de construção de pátios de manutenção pela iniciativa privada, aumentando a pressão sobre os pátios da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos); já a segunda notícia aponta uma curiosa mudança de planos, na qual o TIC para São José dos Campos seguiria pelo leito da Linha 11-Coral (Luz-Estudantes), a mais movimentada da CPTM, até desenvolver um traçado segregado em Mogi das Cruzes, supostamente utilizando a Variante do Parateí para chegar até a Estação São José dos Campos.

Não existe isolamento entre o regional ridículo em via única e a concessão que aniquila o Serviço 710: são parte do mesmo pacote, com responsabilidade compartilhada para quem tenta surfar a onda positivamente — a estes, que se afoguem no próprio mau-caráter.

Ah, e quando a oposição ignora que o governo federal vai rifar um sistema no Recife, que poderia ser comparado a um par de linhas da CPTM, também está sendo vagabunda e desonesta, além de se posicionar à direita, traindo a classe trabalhadora.

Legenda: Jonas Manoel (PCBR) denuncia e questiona a privatização do Metrorec, ligado à estatal federal CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos). Vídeo publicado no canal Cortes Podcast 3 Irmãos do YouTube

Ponto. Não há ou haverá discurso supostamente estadista capaz de apagar mais uma faca na garganta de quem nasceu no CEP errado e construiu uma casa eternamente em reforma num terreno duvidoso, recorte de um solo possivelmente impróprio para ser parcelado.

Boa parte da CPTM é isso mesmo: a correia tecnológica de uma máquina de matar pobre e preto. Devagar, lentamente, cruelmente. Desculpe se não ficou claro desde 2014, quando comecei a escrever. Tentei atrair meus colegas bem vestidos, intelectualmente iluminados e, supostamente, de esquerda, oferecendo as paisagens mais embranquecidas e suaves da malha. Ofereci a parte mais doce, fui gentil.

Falhei miseravelmente. Quando percebi que nem o Tatuapé ou Alphaville conseguiam sustentar vínculos em torno de temas como consumo e habitação, ficou nítido que jamais haveria uma chance para Francisco Morato, cidade que tive a honra de conhecer e estudar sendo recebido, em conjunto com outros estudantes da UFABC (Universidade Federal do ABC) pela prefeita Renata Sene (Republicanos), uma figura, é claro, de direita, que pagará o preço pelo arranjo político que a sustenta — dica: não procurem as coligações para não ficarem tristes —, caso a concessão siga a rota da precariedade, mais óbvia.

Pasme, nem o Grande ABC, berço do lulismo e símbolo da metalurgia por aqui, exibia força suficiente para tensionar a minúscula intelligentsia da esquerda enraizada nos bairros ricos da capital.

Quando figuras proeminentes da esquerda brasileira, como Nabil Bonduki (PT) e Guilherme Boulos (PSOL) publicam em suas redes sociais, sempre vale avaliar não só os comentários, mas a moderação (ou a falta dela) em relação às ideias de potenciais pessoas eleitoras. Seriam alguns comentários um termômetro de um eleitorado que demonstra ser viciado em volante e cidades pouco densas e muito segregadas? Aparentemente, sim. As tristes demonstrações são constantes e é difícil observá-las com passividade.

Ora, pelo visto, o Serviço 710 foi tratado como tratamos a nós mesmos: com desdém, com covardia, com canalhice. Não entendemos ainda que nossos queixos não podem estar na mesma posição dos sapatos de meia dúzia de mandatários (ou burocratas) pouco interessados na dura vida da maioria.

A apatia generalizada, há muito, transforma a política em espetáculo e reduz mandatos a meros comentaristas ou emissores de posicionamentos vaporosos. A própria periferia, em diferentes momentos, não passou de um palco modelado a partir de carne humana descartável, não é mesmo? Cadê o “esquadrão da descentralização” quando um dos principais elementos de estruturação do desenvolvimento policêntrico está sob ameaça? Entre falas vazias ou mentindo cronicamente?

Eis, então, minhas perguntas:

  • Quem votou nessa turma e não se arrependeu ainda? Não vai colocar a cara a tapa?
  • Quem vai continuar votando em quem não tem tem capacidade de articular temas complexos, como aqueles que envolvem sistemas sob trilhos? Você?
  • Quem contribuiu não dando voz, não pautando o tema, não arriscando o próprio tempo e dinheiro? Você também?
  • E o papo furado que sempre desvia dos trens e/ou distorce a periferia para manter a mesma realidade de merda de sempre, não merece ser cortado?

A resposta não exige palavras, mas atitudes.




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