Raça, urbanismo e o tabu brasileiro

Por Caio César | 17/10/2025 | 12 min.

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Legenda: Cercanias da Estação Hebraica-Rebouças observadas a partir do estacionamento na cobertura do Shopping Eldorado. Exemplo do tipo de tecido central e subutilizado que proporciona vistas comercializadas por milhões de reais
Entre o conforto e o constrangimento, o verde que esconde muros. Radicalismo de fachada, contradições de concreto

Índice


Introdução

Nos Estados Unidos, é comum que o debate urbano associe nimbysmo e raça: redlining, white flight, zoneamento excludente. Textos no New York Times (aqui e aqui, por exemplo) ou The Atlantic (aqui e aqui, por exemplo) tratam abertamente de como a segregação urbana e a racial se entrelaçam. No Brasil, essa associação permanece um tabu nas escassas discussões sobre cidades. Preferimos falar em “preservação do verde”, “patrimônio” e “modos de vida”, contudo, o resultado é o mesmo: exclusão de populações pobres e, não raramente, racializadas, dos centros urbanos.

Este texto conecta cinco artigos já publicados no COMMU (Coletivo Metropolitano de Mobilidade Urbana), mostrando como, mesmo quando não é nomeada, a questão racial pode atravessar as disputas urbanas em São Paulo, o que se soma à luta entre classes sociais e às diferentes realidades e disputas de cunho socioeconômico.

Confesso que eu estava enrolando para publicar: desânimo, cansaço e, até mesmo, saturação pelas violências sistemáticas que quase sempre sofro quando utilizo redes sociais com os perfis do COMMU (sobretudo o Instagram, atualmente). A violência cibernética de dez anos atrás, abertamente reacionária e contrária ao petismo, há muito, foi substituída por um reacionarismo mais sofisticado, parte de um progressismo parcial e teatral.

Não deve ser segredo para ninguém que a esquerda, mesmo que moderada e contraditória, perdeu poder na região metropolitana e a capital não vê um prefeito razoável há mais de uma década. Nos dias de hoje, ninguém mais me ofende por eu defender corredores de ônibus e ciclovias, as agressões, agora, são mais sofisticadas e envolvem a infraestrutura e quem pode acessá-las, como e a que preço.

Por que decidir publicar, afinal? O Eduardo, um de nossos membros mais ativos, compartilhou um pequeno comentário feito por Débora Toledo no LinkedIn. Toledo recortou duas figuras de uma dissertação de mestrado e, mais uma vez, contribuiu para escancarar aquilo que sempre discutimos como parte da classe trabalhadora e dos extratos com dificuldade de inserção nos círculos acadêmicos a partir da ampliação do acesso ao ensino superior:

[…] o grupo de pessoas pretas de classe mais baixa está distribuído de forma a ter viagens mais longas, caras e lotadas. Situação intimamente relacionada à distribuição de uso do solo, lógica mobiliária de custo de vida na cidade de São Paulo e infraestrutura de transporte público.

Eu não tenho mestrado e talvez nunca terei. Também não tenho tranquilidade para falar sobre raça: não li o suficiente, não tenho estofo intelectual nessa tão importante arena de debate. O que eu tenho é um conjunto fragmentado de referências, sem a orientação de professores, que se soma ao que eu vejo nos trens, nas audiências públicas e nas telas dos meus dispositivos. Eu também sei interpretar gráficos e aprendi inglês sozinho, logo, consigo olhar para as figuras recortadas pela Débora, as quais reproduzo abaixo com maior resolução, e sentir muita raiva. Por que falamos tanto dos conflitos entre populações aburguesadas de Pinheiros e o capital imobiliário quando, graficamente, o “apartheid perfumado” está escancarado?

Legenda: No gráfico acima, observamos que a mobilidade elevada não se traduz em mobilidade privilegiada quando a acessibilidade é baixa. Em outras palavras: se você não consegue abrigar seu corpo num bairro central, vai sofrer muito, mesmo que progrida.

Legenda: Gráficos e mapa que ilustram como as populações dos “bairros de sempre”, que monopolizam o debate, são brancas e endinheiradas, gozando de viagens curtas. Pretos e brancos pobres moram nas franjas, sendo que os pretos estão numa situação obviamente pior. Brancos endinheirados também ficam mais perto das porções mais densas da rede de trilhos, com múltiplas linhas e mais possibilidades de escolhas, enquanto os menos afortunados, com sorte, acessam uma única linha a 20 ou 30 km de distância da Praça da Sé. Clique para abrir a imagem e ampliá-la.

É por isso que decidi publicar esta pequena compilação de textos de qualidade duvidosa que escrevi para aplacar o que eu, como branco forjado em trens e call centers, sinto ao tentar falar sobre a cidade com quem, supostamente, é de esquerda e apoia a entrada de egressos do ensino público nas universidades.


A inversão metodológica: atacar o concreto, desvelar o simbólico

Síntese: o problema não é o capital em si — que pode até gerar contradições criativas (como um incorporador falando em sistemas de transporte de massa por ônibus, os famigerados BRTs) —, mas a elite progressista que pratica um radicalismo de fachada enquanto preserva privilégios, arrastando mandatos e partidos para um limbo reacionário. A inversão metodológica é, portanto, uma proposta de crítica mais consequente: atacar o tangível, desvelar o simbólico, expor contradições.

1. O teatro radical

Parte da esquerda urbana adota um discurso anti-capital performático, no qual o incorporador é sempre 100% perverso. Não quero aqui defender incorporadores, mas sim rejeitar o tipo de crítica que distorce e empobrece o debate.

Essa postura rende slogans, mas convive com contradições graves: tolerar privatizações de sistemas essenciais (como estamos vendo em São Paulo e no Brasil, com sistemas de metrô), apoiar bairros-jardim como “patrimônio”, fingir não ver o tipo de produção em massa ligada a programas como o Minha Casa Minha Vida e até repetir preconceitos de classe contra periferias emergentes que passam a acumular algum capital relevante.

Resultado: um campo progressista que finge radicalidade no simbólico, mas se acomoda no concreto ou tangível.

2. A inversão metodológica

Em vez de recitar slogans, a práxis que discuto por meio do COMMU opera uma inversão, pois (i) ataco o concreto: loteamentos ruins, carrocentrismo, privilégio imoral de bairros-jardim no Centro Expandido; e (ii) aprofundo no simbólico: desvelo o caráter racial, moral e político dessas escolhas urbanas, rompendo o tabu brasileiro de nomear a segregação.

Trata-se de uma erudição operária: parte do chão da metrópole, da materialidade do território, e não de abstrações acadêmicas ou slogans.

3. O constrangimento revelador

Eis que a postura que estou descrevendo cria desconforto entre supostos pares progressistas.

Ao evidenciar contradições, fica exposto que o tipo de ideia que desenvolvo no Coletivo talvez seja mais progressista do que aquelas propagadas por grupos e/ou indivíduos que se posicionam como radicais. Não é uma questão de ego, apenas não cedo à conveniência de preservar privilégios das porções mais centrais da capital paulista.

O constrangimento, longe de ser falha, é efeito de uma crítica consequente: mostra que o campo progressista precisa se repensar, não só contra o capital, mas também contra suas próprias zonas de conforto.

A reação, que é violenta e me enfraquece, como adiantei na introdução, reforça a dificuldade de ser mais do que um voto útil a cada dois anos. Com tanto constrangimento, alguém precisa se perguntar o que é estar à esquerda e para quem a esquerda deve prioritariamente olhar.


Cinco artigos para ler e refletir

1. Seu “ecobairro”, nossa humilhação (2024)

O cinismo da discussão em torno da suposta preservação ambiental da capital paulista, que estimula a urbanização difusa (chamada de urban sprawl, em inglês), muitas vezes a partir de favelas e loteamentos de origem clandestina ou irregular, produz outro efeito colateral bastante preocupante: o esgarçamento da escala local, negando São Paulo como metrópole e outros 38 municípios como integrantes de sua região metropolitana. De olho no preocupante fenômeno de associações de moradores, organizações não governamentais e indivíduos supervalorizarem a escala local, no que parece um possível efeito do fenômeno descrito por Mike Davis e citado por David Harvey com relação ao mercado imobiliário estadunidense, ou seja, um comportamento exacerbador do direito de propriedade que resulta num “microfascismo de vizinhança”, passei a olhar mais cuidadosamente para a urbanização difusa sem abandonar um olhar voltado à classe social e, sobretudo, à concentração de renda.

  • Denúncia do greenwashing em bairros ajardinados como Alto de Pinheiros e Jardim Europa;
  • Mostra como o discurso ecológico esconde segregação socioeconômica extrema;
  • Descreve o “microfascismo de vizinhança”: associações de moradores que usam o verde como escudo contra o adensamento; e
  • Em outros contextos, seria nomeado como política racial (aqui em São Paulo, vira “ecologia”).

2. Rinha de ricos: em busca do antídoto (2024)

Eufemismos No bojo dos meus deslocamentos entre São Paulo e São Bernardo do Campo, comentei com outros membros deste Coletivo sobre como é muito fácil ser transformado numa espécie de caricatura ao tentar discutir diferentes porções da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo). Nada contra Paris, mas a São Bernardo do Campo chego de ônibus Há alguns dias, voltei a me deslocar diariamente para São Bernardo do Campo[1] e, ao longo de uma semana, suspeito que já acumulei material suficiente para fomentar discussões por meses, escrevendo artigos, publicando no Instagram, dialogando internamente com outros membros no Telegram, etc.

  • Analisa a violência simbólica no debate urbano a partir da experiência de uma década acumulada no COMMU;
  • Chama a agenda anti-verticalização de profundamente racista e excludente, destacando ainda que o racismo opera veladamente em certos discursos;
  • Mostra como rótulos interditam a fala de quem não vem do “berço certo”; e
  • Expõe como sujeitos periféricos são tratados como “munição barata” num jogo de elites.

3. Intelectuais incorporam discurso contra verticalização e prejudicam debate (2023)

“Todo mundo quer poder morar numa casa, ou num bairro que tenha uma verticalização não tão grande”, assim começa a fala de Paula Santoro, uma das representantes da intelectualidade da Universidade de São Paulo (USP). A construção de prédios em vez de casas vai desconfigurar bairros, destruir quadras e, por consequência, modos de vida. O alerta é da coordenadora do LabCidade, @paulafsantoro. Em entrevista na @CBNoficial , Paula detalhou os efeitos nefastos do PL da revisão do Plano Diretor.

  • Crítica à retórica acadêmica contrária à verticalização em áreas centrais;
  • Mostra como a defesa de “modos de vida” de baixa densidade preserva privilégios;
  • Expõe alianças entre acadêmicos e associações de bairro reacionárias; e
  • Com sutileza, sugere que o efeito racial é implícito: pobres e majoritariamente negros foram e continuarão a ser afastados das principais centralidades, sobretudo as paulistanas, seja no plano das ideias ou do território concreto.

4. As contrariedades na discussão de uma São Paulo policêntrica (2016)

Introdução Imagine viver numa região com 20 milhões de pessoas e ouvir discursos, geralmente proferidos por alguns moradores da capital, de que São Paulo precisa se descentralizar, numa noção reducionista, na qual há uma relação de dependência completa, como se pudéssemos separar todo um complexo e diverso território em duas metades: na primeira, a mancha formada pela Avenida Paulista, a região de Pinheiros e mais alguns lugares ao longo da Marginal Pinheiros, já na segunda metade, você tem todo o resto, tudo no mesmo balaio, da mais paupérrima periferia aos subúrbios mais ricos, com sedes de grandes empresas, tudo classificado e vitimizado como “o resto”.

  • Defende que a RMSP (Região Metropolitana de São Paulo) já era policêntrica antes da banalização e instrumentação da ideia de descentralização pelo nimbysmo à brasileira, que ganhou força na capital paulista com a revisão do PDE (Plano Diretor Estratégico);
  • Critica a narrativa dicotômica centro contra periferia, que apaga polos como Tatuapé, Osasco e Alphaville; e
  • Argumenta que o apagamento não é neutro: desqualificar centralidades geograficamente periféricas é também desqualificar populações que as habitam e frequentam, o que também pode envolver populações com estigmas diversos, além de aprofundar o abismo no qual se situam as múltiplas cidades-dormitório da periferia metropolitana.

5. São Paulo sem São Paulo: redefinindo o papel da metrópole (2024)

Cerca de metade da população da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo) reside nos 38 municípios que orbitam ao redor da capital e, mesmo dentro da capital, parcelas significativas residem a uma distância considerável (a 20, 30 ou mais km de distância) das novas centralidades constituídas ao longo do rio Pinheiros, como Vila Olímpia, Itaim Bibi, Berrini e Faria Lima. Por que um morador da Zona Leste deveria tratar o parque Ibirapuera como principal parque do município, quando reside a uma distância mais curta dos parques do Carmo, do Piqueri ou do Ceret?

  • Desmonta o teatro da “descentralização” quando da captura por elites do Centro Expandido;
  • Denuncia a chacota contra Tatuapé e Alphaville, tachados de “cafonas” ou “monstruosos” para escancarar a teatralidade perversa;
  • Expõe a lógica política por trás da chacota: desqualificar a ascensão de tecidos fora dos circuitos hegemônicos de acumulação de capitais, denotando como mesmo as periferias consideradas ricas e brancas podem nunca sê-lo o suficiente; e
  • Mostra como o preconceito se esconde em críticas urbanísticas ou estéticas.

Conclusão

A partir de diferentes exclusões, a questão racial aparece de diferentes maneiras e intensidades ao longo de cinco artigos, talvez até disfarçada, em alguns deles: nos bairros ajardinados, exclusão sob a aura da ecologia; na aversão à verticalização, exclusão mascarada como modos de vida; na chacota contra periferias, exclusão mascarada pela estética; no apagamento das centralidades, exclusão introjetada numa pretensa neutralidade técnica; e na violência contra militantes periféricos, exclusão mascarada por rótulos.

O denominador comum é a recusa em nomear a questão racial. As elites preferem falar em “patrimônio”, “verde” ou “qualidade de vida”. Os efeitos são os mesmos, entretanto: uma metrópole segregada, cara e hostil à maioria. Parte da população, como a população da qual faço parte, é obrigada a encarar os efeitos da segregação, da carestia e da hostilidade, pois a movimentação de nossos corpos é uma necessidade para sobreviver a partir da lógica do trabalho.

Em todo caso, mesmo que eu deixe de lado a questão racial, focando apenas na dimensão econômica, a situação não melhora substancialmente. Há um trabalho excelente de Ricardo Barbosa da Silva — Barbosa, diga-se de passagem, está longe de se encaixar no estereótipo da esquerda branca de Pinheiros —, que explicita isso no tempo e no espaço a partir de dados da Companhia do Metropolitano. Barbosa fez, além de colocações precisas (as quais deveriam servir como bússola num debate tão elitizado), mapas bastante didáticos (ver abaixo):

Legenda: A renda é extremamente concentrada, não só na capital, mas na região metropolitana inteira. Algumas exceções são, justamente, alguns polos regionais, como Alphaville, entre Barueri e Santana de Parnaíba, ou agrupamentos entre múltiplos municípios do Grande ABC. Nenhum polo regional fora da capital paulista, talvez, em parte pelas limitações dos dados, conseguiu atingir o quinto quintil de renda. Clique para abrir a imagem e ampliá-la.

A crítica racial ao urbanismo brasileiro precisa deixar de ser tabu, principalmente nos espaços participativos e discursivos que se distanciam do também problemático ambiente acadêmico. Sem nomear o problema, continuaremos reféns de discursos edulcorados que preservam privilégios às custas da maioria. O que está em jogo não é apenas o zoneamento ou o desenho da cidade. É o direito de existir — e prosperar — na metrópole. Alguns estudiosos e paisagens já oferecem as ferramentas e as pistas necessárias, resta saber se continuarão ignorados, silenciados por quem diz o que certas populações brancas querem ouvir.


Colaborações: Eduardo Ganança (divulgação dos apontamentos de Débora Toledo no LinkedIn)



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