Por Caio César | 29/06/2025 | 12 min.
Índice
Introdução
Ao me deparar com discussões como a do episódio “Pioneiro e Solitário”, do canal São Paulo nas Alturas, de Raul Juste Lores, sempre termino achando que tem faltado um direcionamento de esforços mais cuidadoso nas fileiras do campo progressista, que tem se colocado como aliado de um punhado de famílias com musculatura financeira suficiente para morar nos bairros mais nobres do Centro Expandido.
Tais famílias, organizadas em associações de moradores, buscam recorrentemente pretextos para preservar privilégios, o que se traduz, majoritariamente, em impedir transformações na paisagem, como aquelas que aumentam a oferta de unidades a partir de construções novas e mais verticais. Vídeos que tratam de áreas antigas da cidade são excelentes para reflexões sobre como a realidade, transportada para argumentos e narrativas nem sempre honestas, pode sofrer distorções para filtrar quem pode enriquecer e a partir de quais práticas de consumo e acumulação. Assim, mais do que preocupações com as prioridades do campo progressista, tento combater uma certa ingenuidade na discussão da cidade a partir da arquitetura dos edifícios.
A arquitetura é fundamental na discussão sobre o Centro que estou propondo aqui. Na arena arquitetônica, apelos duvidosos de preservação não são tanto sobre a importância do arquiteto 'A' ou 'B' ou o tipo de arquitetura produzida pelo arquiteto, mas sobre o peso do pretexto para desavisados ou, colocado de outra forma, a possibilidade de tokenização do arquiteto 'A' ou 'B' é mais relevante do que qualquer outra coisa. Para uma interpretação sobre a tokenização de indivíduos, veja o quadro “Tokenização”.
Tenho argumentado há alguns bons meses que existem muitos argumentos de conveniência, mas nada pragmáticos. Não conseguimos produzir uma sociedade equilibrada, mas basta uma pequena fagulha e lá vem o desejo de uma riqueza a partir do simbólico: no caso do Centro paulistano, são os imóveis, as obras de arte, as relações de um passado que já se foi, etc. De um lado, uma agenda anti-verticalização que busca pretextos, do outro, o desejo de uma cidade inclusiva, bela e criteriosamente desenhada para elites inexistentes.
Como explicado pelo jornalista no vídeo, o Edifício Guarany cristaliza capital industrial de um passado cada vez mais distante. Fato que produz um contraste e tanto quando situado junto aos grupos de interesse que tentam selecionar quem pode ou não incorporar de acordo com preferências bastante... duvidosas e, já que o Rino Levi apareceu recentemente numa pirueta argumentativa de Pinheiros, talvez o vídeo e este artigo sejam mais pertinentes do que, a princípio, possam parecer.
Marginalização e inclusão
A problemática do edifício esbarra numa das feridas mais purulentas e constrangedoras de São Paulo: o “parque” Dom Pedro II, que se encontra esquartejado por um complexo viário que possui múltiplos viadutos e dispositivos voltados à fluidez viária. Como resumiu Tiago de Thuin, a referida área verde é, na verdade, não um arquipélago de gramados residuais ao redor de viadutos, mas “um dos parques mais antigos da cidade, com museu dentro (o Catavento é recente, mas o espaço foi feito para ser museu já nos anos 1920), hipercentral”, transformado em “uma rótula viária inóspita”.
Esbarra ainda na dificuldade de preservar o caráter social presente em porções do tecido que perderam prestígio (e capital). Mantendo o diagnóstico de que o parque se tornou uma rótula inóspita, exercitemos outra realidade, na qual, nós, o povo de São Paulo, terminamos não com a Avenida dos Estados em meio a tentáculos retaliadores, mas com um túnel para “não brigar com o carro” e a eliminação de todos os viadutos, consequentemente, criando um parque melhor. Ora, o que aconteceria com o m²? Subiria. O que aconteceria com o perfil do morador? Mudaria.
A situação hipotética do breve exercício acima não é nenhuma obra de ficção fantástica e inédita. Trata-se de uma situação que tem deixado parte relevante de São Paulo numa sinuca de bico e, por isso, não é surpreendente que os prédios do Centro estejam do jeito que estão. Ainda há o risco de, ao melhorar a situação do Centro, o capital atual, não o de 1930, querer comprar e demolir.
O estado de conservação do Guarany é considerado ruim. Não é exagero supor que, se um prédio estiver “feio” numa área que está recebendo melhoramentos custeados pelo erário, melhor ainda para o capital, pois a deterioração pode ser motivo perfeito para o proprietário alegar descaracterização e deterioração, caso seja bem tombado. É por isso que eu acho muito estranho quando não vejo uma construção de política tributária, política de aluguel social…
Francamente, não sei como alguns querem chegar numa São Paulo com mosaicos em edifícios de luxo, mas com gente que claramente não consegue custear nem a manutenção básica do condomínio. No mercado formal, moradia central acessível ainda é sinônimo de precariedade e abandono. Não por acaso, a alternativa encontrada foi a periferização indiscriminada, inclusive com o surgimento de conjuntos habitacionais, de produção tanto pública quanto privada, capazes de monopolizar o horizonte.
E vou além na provocação: enquanto ninguém defender abertamente falência e prejuízo, incluindo a própria, no caso de proprietários de bens imobiliários, não vejo como falar em especulação a sério. Quando transformado em ativo financeiro, imóveis são tidos como infinitamente valorizáveis. A especulação é generalizada e contaminada por uma série de fetiches de baixo gabarito a preços que, entre sobrados e apartamentos, ultrapassam facilmente os R$ 700 mil e que, não raramente, atingem R$ 2 milhões, no caso dos produtos de menor preço.
Em suma, se você chegou até aqui, acho que já entendeu que o vídeo é relevante para estimular discussões por oferecer um exemplo de prédio de arquitetura assinada que contrasta realidade ante discursos e práticas.
Motorização vampírica
Não quero aqui deixar margem para uma interpretação equivocada em torno de possíveis projetos de “revitalização” para o parque e seu entorno. Na discussão que suscitou este artigo, nosso membro Eduardo Ganança apontou que “esses projetos tiram mais espaço do ônibus do que do carro (quando tiram)”, como uma espécie de premissa cuja discussão não está aberta. Eu concordo e suspeito que o caso envolvendo o edifício e sua vizinhança é um clássico problema dos subúrbios.
Explico. O viário é local, mas o problema é regional. Devido às relações parasíticas dos subúrbios e exúrbios, quando o viário é implodido num lugar, o problema decorrente parece se propagar em 30 municípios. Um baita problema e uma questão central na polarizada situação do parque e, de certa forma, do Centro, cercado por estruturas rodoviárias agressivas para muito além do que os olhos e pernas alcançam a partir do Guarany.
Infelizmente, não temos uma elite capaz de pensar para além da escala da padaria — tanto faz a elite! Nenhuma consegue! A dupla de viadutos Antônio Nakashima, 25 de Março e o Complexo Viário Evaristo Comolatti são parte da Radial, parte da Salim, parte de um monte de pedaços de viário, que se conectam a rodovias, que vão empurrando mais e mais as pessoas para um modelo que demanda esse tipo de estrutura.
Qual a experiência acumulada ao longo de uma década pelo Coletivo? A de que ninguém quer olhar para isso. Ficamos uma década falando do único negócio elétrico sobre trilhos que atende essa região — tudo bem, atende mais ou menos, mas enfim, espero estar me fazendo entender — e penetra em mais de 20 municípios. E a reação é a que todo mundo já conhece: a de que é um transporte tratado como irrelevante, nada sedutor e que não permite o tipo de segregação socioeconômica e étnica-racial desejada.
Sendo franco, até os tais “projetos de revitalização” ou de qualquer coisa que, obviamente, vá mexer com o mercado imobiliário, patinam quando envolvem o supracitado parque. Patinam porque, aparentemente, são irrelevantes e rapidamente esquecidos na atual configuração dos negócios (ou do capital que se expressa, seja acumulando a partir de São Paulo, seja cristalizando transformações na paisagem da cidade). É simplesmente um não assunto, como também tem sido o Terminal Princesa Isabel, que desapareceu nas maquetes tridimensionais ligadas ao complexo governamental privadamente gerido. Posteriormente, foi revelada uma solução extremamente questionável, consistindo no deslocamento das linhas para as proximidades da Estação Luz do Trem Metropolitano, alterando completamente o contexto de atendimento que ainda existe enquanto escrevo. Para uma interpretação sobre a localização dos terminais centrais, veja o quadro “Terminais de São Paulo”.
O que a cidade tem demonstrado é profunda incapacidade de mexer com estruturas como as que retaliaram um parque simbólico da capital do estado. Eis um dos muitos grandes problemas da cidade, mas que “perdem para a padaria”; são problemas assim que mexem com a vida de gente comum, contudo, gente comum não vai ao “tipo de padaria que importa”, exceto para trabalhar, mas isso também não importa.
Agora… se gente supostamente mais motivada para olhar para essas dimensões, não olha ou, se olha, não parece falar publicamente, o que esperar do Raul? Sozinha, a provocação dele já parece positiva. Se ele não tivesse falado, eu, do alto da minha ignorância, nem pensaria no tal edifício — e passei do lado dele por anos da minha vida, dentro da 2100-10 (Terminal Vila Carrão-Praça da Sé), que passa por viadutos retaliadores — e hoje em dia também usa o terminal quando opera como 2100-21 (Terminal Vila Carrão-Terminal Parque Dom Pedro II). Ou seja, eu só precisava do nome, o resto não precisa partir do Raul. Aliás, eu nem espero que um liberal que trabalhou na Vejinha e foi correspondente internacional tenha o olhar de usuário de transporte ou de planejador.
E digo mais, desenterrando uma memória: quando mal tínhamos iniciado o Coletivo e estávamos nos organizando, fizemos uma reunião no Parque da Juventude. A reação de uma pessoa ativista mais experiente em relação à escala de atuação proposta, abrangendo não apenas a capital, mas a capital e a RMSP (Região Metropolitana de São Paulo) foi um tanto quanto debochada, como se não passasse de sofrimento autoinfligido por uma escolha consciente. Aquele episódio, apesar de distante, ainda serve como um retrato ainda vivo da mentalidade dos projetos com ônibus que evaporam.
É quase como se pudéssemos gozar do luxo que é recortar a realidade para se encaixar numa visão mais palatável. Não, a linha de atuação proposta nunca foi uma simples escolha. A atuação em escala metropolitana parte de uma constatação de quem é atravessado pelo próprio objeto que se propõe a disputar, então, o caso do Parque Dom Pedro II, na minha visão, há que se recuperar as dimensões amplas dos “crimes urbanísticos” do passado e apresentar uma proposta que não fique restrita à escala local, que é apenas uma das escalas existentes.
Isso é algo que o poder público precisava ser capaz de fazer, com ou sem consultorias, e, se for fazer, ter capacidade de desenvolver boas intervenções no mercado imobiliário, do contrário, o que está ruim vira uma espécie de estoque e, o consumo desse estoque pelo mercado dificilmente não vai envolver massiva substituição populacional, penalizando quem tem menor renda.
Quadros
Terminais de São Paulo
Os terminais centrais em São Paulo, notadamente aqueles no interior dos limites da Subprefeitura da Sé, são como estações ferroviárias em cidades europeias. Cada um deles ancora um conjunto de ligações radiais, geralmente de um vetor em direção às periferias de outra zona: o Dom Pedro II é majoritariamente a ponta do vetor da Zona Leste, o Bandeira, que também destruiu a Praça da Bandeira e é vizinho de uma via não exatamente amigável, faz papel similar em relação à Zona Sul.
Tokenização
Sobre a ideia de tokenização, eu uso token do mesmo jeito que se usa financeiramente: uma representação. Por exemplo, quando eu falo que Rino Levi virou token no caso da demolição de uma antiga escola de inglês, é como se Rino Levi fosse um ativo e, de alguma forma, alguém estivesse emitindo outro com base nele, visando certas finalidades, ou seja, há uma ideia de que a figura do arquiteto oferece autoridade, valorização arquitetônica ou qualquer coisa conveniente.
Sendo assim, Rino Levi é usado como se fosse uma moeda para capitalizar um argumento. Não importa se há desonestidade, o que importa é fortalecer o argumento.
Vamos pensar em outro exemplo, voltado principalmente à massa, na qual me incluo: sempre aparecem discussões sobre descentralização, geralmente associadas com a geração de postos de trabalho. Nelas, um ou mais indivíduos de uma classe privilegiada, mas numericamente menor, tokenizam uma maioria alijada para se colocarem como figuras acima das contradições, figuras lutadoras pelo bem comum, que supostamente estariam "juntas" dessa maioria. É mentira, mas soa muito melhor e valoriza o argumento.
O indivíduo ou o grupo de indivíduos não dirão que estão quase implorando por um passaporte municipal e medidas rígidas de controle populacional e construtivo, visando garantir a valorização do próprio patrimônio — postura que pode ser tratada como especulativa, aliás — e a manutenção máxima das relações do tecido social no qual se insere. Defender-se-á, abstratamente, mas de forma muito ampla, que esse mesmo fenômeno possa acontecer em virtualmente qualquer lugar, mesmo sendo óbvio que isso não é possível e, consequentemente, que o conflito seja muito mais doloroso.
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