Paralisia e a cidade contra a cidade

Por Caio César | 30/10/2025 | 11 min.

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Legenda: Morfologias contraditórias no Centro Expandido: edifícios voltados às avenidas Presidente Juscelino Kubitschek e Santo Amaro contrastam com o antigo loteamento do Jardim América, totalmente horizontal, ao contrário do vizinho Jardim Paulista, ao fundo. A irracionalidade da ocupação horizontal pode sugerir ingenuamente que a arborização só existe em meio às casas de alto padrão
Dois projetos em disputa: adensar bem nos eixos centrais ou terceirizar custos às franjas. Os sinais recentes não são bons. Em vez de respostas fáceis, ofereço um inventário de contradições — Augusta, CPTM, Raposo, Pirituba, Alphaville — que expõe vícios persistentes

Índice


Contextualização

Nos últimos meses — ou seriam anos? —, tenho observado padrões preocupantes e saturado meus companheiros deste Coletivo com mais ou menos os mesmos assuntos, ainda que a roupagem pareça diferente num ou noutro momento.

Como todo trabalho voluntário, o que faço aqui acaba entrelaçado com a minha vida, não se resumindo meramente a trabalho (de campo, de produção textual, fora momentos torturantes à frente do Instagram). Na maior parte do tempo, eu também lido com decisões difíceis, às vezes, paralisantes.

Se eu escrevo sobre questões do Centro Expandido, estabelecendo ou não conexões mais amplas e preocupadas com as periferias, termino me sentindo não só um elitista, mas também um peixe fora d’água, dada a minha baixa identificação com aquele tecido urbano. É como se eu perdesse tempo falando de lugares que não só estão sempre em evidência na mídia e na política, mas nos quais sou obrigado a estar, mesmo que alguns discursos (em audiências públicas, por exemplo) deixem claro que populações inteiras não são bem-vindas.

Já se eu ergo uma barreira psicológica, falo daquilo que considero marginalizado e busco um tensionamento menos óbvio, termino com um forte sentimento que me deixa com a sensação de que me assemelho a uma mistura de impostor com hipster. Como não parecer um idiota quando os territórios fora do Centro Expandido, mesmo apoiando as discussões no transporte sobre trilhos, oscilam tanto na rotulagem? Num piscar de olhos, nem a riqueza e os empregos nos endereços do Tatuapé e de Alphaville, nem a situação delicada de municípios como Francisco Morato, parecem oferecer alguma garantia.

É como se nada fosse relevante ou viável e como se qualquer movimento terminasse em derrota. Não uma derrota num sentido de prejuízo relevante, mas de transformação do futuro ou de promoção de bem-estar. Mesmo com suas próprias lutas e contradições, dadas as superestruturas socioeconômicas, o Centro Expandido sempre vence, redefinindo a dimensão da escala local a ponto de todo o resto parecer profundamente irrelevante — não por sê-lo, é claro, mas pela imensa assimetria.

Ora, as periferias continuam sendo esmagadas; o simbolismo dos chamados “bairros nobres” segue inabalado; a distribuição populacional não aparenta perspectivas de mudança; a discussão de infraestrutura é engolida pelo populismo fiscal.

Este texto não pretende dar respostas, pelo contrário, na contramão das redes sociais e tantas discussões infrutíferas, o melhor caminho parece ser o da dúvida: não quero ninguém com o silêncio da certeza, mas com o ruído atordoante da perplexidade.


Padrões

Vamos aos padrões preocupantes, todos produto de algum tipo de monitoramento ou exposição ao debate público e à política.

Quanto à política, saliento que, há algum tempo, sigo monitorando internamente o comportamento de diferentes mandatos e assuntos. Entre os mandatos monitorados, posso destacar nomes como Nabil Bonduki (PT), Ênio Tatto (PT), Guilherme Cortez (PT), Caio Cunha (PODE), Welington Formiga (PDT), Malu Fernandes (PL), Mara Bertaiolli (PL), Antonio Donato (PT), Delegado Eduardo Boigues (PL) e mais alguns outros. Não tenho a menor capacidade para sistematizar um acompanhamento do conteúdo prostituído às redes sociais do momento, logo, eu acompanho à medida que recebo as publicações, sem me preocupar com os critérios obscuros.

Já entre os assuntos monitorados, embora muita coisa venha das redes sociais, ficando sujeita à “roleta do algoritmo”, muita coisa também vem da Web, principalmente via RSS (um protocolo para distribuição de conteúdo), facilitando o acompanhamento das manchetes.

Legenda: RssOwnix: leitor RSS multiplataforma é aliado para driblar dispersão de informação, algoritmos e sites poluídos por anúncios e conteúdo apelativo

Entre os assuntos que mais estão se repetindo nas discussões internas que promovo, temos:

  • As lutas dos grupos contrários à transformação dos bairros centrais, geralmente com interesses antagônicos aos das periferias;
  • As privatizações lesivas cada vez mais avançadas, como aquelas que afetam o transporte sobre trilhos;
  • Discussões urbanísticas em geral, principalmente às associadas com o ordenamento (as leis ou mecanismos de regulação) e o uso e ocupação do solo (como a promoção do uso misto por meio das fachadas ativas); e
  • O custo da infraestrutura rodoviária, considerando também posições perigosamente populistas que promovem insegurança jurídica, populismo fiscal e suburbanização.

Parece elegante. Parece. Na prática, é puro desgaste.

Eu me sinto esmagado de todas as formas possíveis.

Num dia, um vereador paulistano fala da rua Augusta em tom irresponsável, fazendo parecer que as galerias ameaçadas de demolição já estavam lá há milhares de anos, em mais um contorcionismo que nega dinâmicas de mercado e política pública que o próprio vereador ajudou a promover, negando ainda o papel das populações locais no fomento ao enobrecimento que hoje as expulsa. Nenhuma resposta legislativa clara, nem mesmo uma linha de atuação clara, com uma visão para a região compatível com a trajetória de um professor universitário que é uma das poucas grandes referências em habitação no país.

Ao mesmo tempo, dezenas de figuras, das universidades à imprensa generalista, passando pelo tecido ativista e até políticos de outras cidades, impulsionam uma pesquisa questionável da associação comercial da capital, ignorando o recorte geográfico e o lobby descarado por mais vagas de estacionamento. Ao longo das semanas, uma montanha de desinformação foi movimentada. Saem como vencedores os grupos que externalizam as dores do crescimento para as periferias e comerciantes que parecem grudados aos volantes de seus automóveis. Não parece ser bem o que São Paulo precisa.

Aliás, quase que paralelamente, gente que acha que é preciso dizer “chega de prédios” ganha espaço na imprensa, que, coincidentemente, já tinha romantizado operações imobiliárias que facilmente atingem R$ 2 milhões em sobrados aprisionados em pequenas vilas. Vilas de sobrados em endereços seletos se transformaram recentemente num simulacro de condomínio fechado, com a vantagem de não causar tanto constrangimento.

Em determinado dia, um dos melhores deputados do Legislativo paulista, sabe-se lá por qual motivo, decide que o Serviço 710, um feliz acidente da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), não foi encerrado devido ao arranjo jurídico do programa de desestatização do governo Tarcísio de Freitas (REP), mas por uma decisão deliberada da concessionária, que supostamente não lucraria o suficiente. Mentira pura. Notícia falsa. Simples assim. Negacionismo: negou contrato, negou mecanismos públicos de consulta, negou tudo.

Legenda: Placa indicativa de destino na Plataforma 1 da Estação Ipiranga apresentando sombra de um passado recente: Jundiaí como destino. Hoje, com a interrupção do Serviço 710, os trens retornam para Rio Grande da Serra ao chegarem na Estação Palmeiras·Barra Funda. Concessionária tenta minimizar problema com mitigações baratas, como uma escada metálica de baixo custo

Diariamente, um movimento contrário aos pedágios na rodovia Raposo Tavares captura, com verniz extremamente rodoviarista, a questão de uma linha de metrô atendendo a porção sudoeste da região metropolitana, notadamente incluindo Cotia, uma das cidades com trajetória mais patética e desprezível em matéria de urbanização. O movimento trata a linha de metrô como uma obra trivial, nega os problemas da Raposo, indiretamente defende que os mais vulneráveis paguem a conta e, nunca, nunca, jamais, em hipótese alguma, confere materialidade à discussão problematizando o transporte público atual e tumores suburbanos como a Granja Viana.

Sem grande discussão pública, um verdadeiro cluster de torres surge às margens da rodovia Régis Bittencourt, que por acaso não é a rodovia que conta com uma das linhas de maior demanda da extinta EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos). Torres de 36 andares com apartamentos que, nos casos de menor adensamento potencial, possuem predominantemente 125 m², com sistema viário de acesso controlado e implantação fragmentadora de um tecido urbano com claros sinais de subnormalidade habitacional nas imediações. Na lógica de desenvolvimento imobiliário propagada por várias associações de moradores da capital paulista, não só seria “belo e moral”, pois “descentraliza”, como também não provocaria imensos deslocamentos que poderiam estimular o uso do carro e asfixiar ainda mais o sistema viário das regiões mais dinâmicas. Parque Firenze é o nome, caso alguém do outro lado da tela tenha curiosidade.

Embu, claro, fica muito atrás do desmatamento que permitiu a construção de algumas torres em Pirituba. Quantas? Ah, isso não é importante, sabe? A nós, é dito recorrentemente que não há infraestrutura suficiente em bairros como Vila Mariana, Moema e Pinheiros, que, aparentemente, sempre lutaram com afinco por habitação social, então, só resta intensificar a pressão sobre periferias que não possuem nenhuma nova grande infraestrutura de mobilidade prevista! Pinheiros pede socorro, afinal!

Está bem, vou dizer: são 51 torres no Grand Reserva Paulista da MRV, ocupando um antigo terreno do Banespa. 7 mil apartamentos voltados para quem não está nas rotas especulativas — aquelas que todos sabem quais são, mas que nunca estimulam mecanismos já instrumentalizados legalmente, como impostos com alíquotas escalonadas conforme o nível de ociosidade. Se todos no Grand Reserva integrarem famílias-margarina de 4 pessoas, na média, teremos 28 mil novas pessoas. Uma excelente notícia para a Linha 7-Rubi (Barra Funda-Francisco Morato-Jundiaí), não é mesmo? Ah, e para reforçar a tranquilidade, a mesma MRV tem mais 64 prédios “no pente”, num tal de Sete Sóis.

Que pena que não temos infraestrutura no Centro Expandido, não é mesmo? Com certeza, a prioridade é discutir características da rua Augusta sem qualquer responsabilidade historiográfica, mercadológica e até bibliográfica! Eu não tenho dúvidas de que existiam ainda outras situações muito prioritárias perto de estações como Pinheiros e Fradique Coutinho. Além do mais, a MRV está operando dentro do PMCMV (Programa Minha Casa Minha Vida), ou seja, é incriticável, do contrário, vamos comprometer o maravilhoso governo que anda deixando até trens pegarem fogo nos poucos trilhos que efetivamente controla! Nem vou dizer qual é, para não melindrar sua sólida situação.

Legenda: Rua João Cachoeira, no Itaim Bibi: fotografia tirada a cerca de 300 metros do Corredor Nove de Julho, atendido por uma das linhas mais frequentes de toda a região metropolitana: 6200-10 (Terminal Bandeira-Terminal Santo Amaro). Logradouro a poucos metros da Faria Linha ainda é irrigado por uma série de outras linhas e também fica a apenas 1,5 km da Estação Cidade Jardim da Linha 9-Esmeralda (Osasco-Varginha). Mescla de usos e abundância de empregos constratam com tecido horizontal do vizinho Jardim Europa e com o cinismo em torno de uma suposta falta de infraestrutura. Será mesmo que a cidade deve continuar crescendo em Pirituba e Embu das Artes?

E, nessa hora, na falta de discussão franca e adulta, resta a realidade degradante: antes Pirituba a Francisco Morato, não é mesmo? Inchar Caieiras, Franco da Rocha e Francisco Morato, que já contam com imensas áreas de risco em terrenos declivosos tomados por loteamentos insalubres, definitivamente, não seria melhor.

Expulsar o “coleguinha” para mais longe pode até livrar a vista de quem está mais preocupado com as memórias que adquiriu num curso caro de inglês, mas não inibirá o consumo de recursos, nem a presença física associada à renda, à educação e ao lazer. Afinal, alguém precisou construir e manter uma certa escolinha e todo o ecossistema ao redor funcionando, né? A lógica de “varrer pessoas para debaixo do tapete” se reproduz numa periferia como Pirituba, com moradores atuais se opondo aos novos condomínios, quando eles mesmos também contribuíram para transformações ainda mais severas e antigas. É errado e cria falsas simetrias, mas é mais fácil.

Finalmente, no outro extremo da região, dois grandes empreendimentos imobiliários se somam à exploração de uma gleba ociosa em Alphaville (a última que restou), com forte orientação para segregação e mobilidade baseada no automóvel. A prefeitura de Santana de Parnaíba, que divide parte das responsabilidades sobre Alphaville com Barueri, dobra a aposta, mantendo limitações no gabarito, assim, mais prédios são necessários e mais mata precisa ser desmatada, enquanto abre mais vias para conexão em meio aos muros e cancelas que dominam as paisagens de maior renda.

Bem… será que os padrões ficaram claros? Espero que sim, até porque, eu só dei exemplos para dialogar com a minha choradeira inicial e com uma década de escrita ressentida.


O que fazer?

Nada, claramente, nada.

A Augusta é prioridade, os parques da Água Branca e do Ibirapuera são os únicos que importam. A CPTM liga nada a lugar nenhum e discutir a privatização de suas linhas é perda de tempo, até porque, pode prejudicar o banco de fomento dirigido por um tal de Aloizio Mercadante (PT). Alphaville só tem bolsonarista e ninguém precisa trabalhar lá, então, besteira se vão fazer mais uma “cidade privada” e entuchar mais carro na rodovia com nome de ditador que está sendo alargada para coroar a insensatez paulista.

Não é como se, em meio a uma década de ressentimento, alguma coisa produtiva tivesse sido dita. Movimentos supostamente em defesa da capital, que mal possuem presença na Internet e discussão aberta de ideias, com certeza terão mais respostas. Se não tiverem respostas, talvez tenham dinheiro — não sei dizer se o dinheiro comprará respostas, mas claramente não anda comprando caráter, tão em falta, tão escasso.

E, no final, todos nós nos odiamos mesmo. Todos os dias alguém diz que “não cabe mais ninguém”, mas não parte. Atitudes dizem mais do que palavras: é claro que cabe. Cabe muito mais gente, só não de uma melhor maneira por burrice. Ainda bem que estamos no caminho apropriado para ter uma população cada vez mais politizada e com elevado grau de alfabetização urbanística, como demonstrei mais uma vez.




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