Por Caio César | 21/07/2026 | 3 min.
Hoje é um dia profundamente triste, mas que, principalmente desde 2022, eu sabia que viria, cedo ou tarde.
Fundei o Coletivo em 2014.
Mais de uma década depois, a situação da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) me deixa profundamente triste.
É uma sensação de luto que não sei descrever.
Sinto que joguei 10 anos da minha vida fora. Por causa da CPTM…
- Apostei numa graduação voltada ao planejamento do território, para descobrir depois que não garante emprego decente;
- Perdi a fé no ativismo, afinal, é só mais um trabalho precário, com resultados precários;
- Perdi tempo inestimável com mandatos que não passam de blogueiros oportunistas.
Eu entendi ou, talvez, ainda tento entender, que a CPTM importa pouco.
Não é politicamente lucrativa. Não é um “ativo que dá voto”.
Pior ainda, descobri que a desigualdade vai além da renda e atravessa quem somos. Todas as linhas que já passaram pela CPTM são quase invisíveis.
Tudo aquilo que envolve o Trem Metropolitano parece desviar do que é reiteradamente vendido, inclusive por pretensos progressistas, como qualidade de vida.
Nenhuma voz do COMMU foi capaz de desafiar isso. Não por sermos poucas vozes, mas por sermos marginais. Não temos dinheiro ou bons contatos. Falta-nos capital.
Em uma década, foram centenas de artigos e dezenas de milhares de fotografias. Pouco adiantou. A compreensão do território é imensa, mas a capacidade de mobilizá-lo é irrisória.
É aterrador. Eu me agarrei a algo que, para mim, foi uma das poucas políticas habitacionais e um dos poucos sistemas nos quais dava para ser pedestre sem tanta humilhação.
A CPTM não foi uma simples operadora. O Trem Metropolitano é um sistema complexo, multifacetado. Uma ponte entre mundos marginais. Ao reerguer as linhas, a estatal, talvez sem se dar conta, costurou múltiplas políticas públicas.
A CPTM que eu conhecia, infelizmente, acabou. A remanescente Linha 10 é um pequeno fragmento de uma malha que, no passado, ultrapassou ligeiramente os 270 km de extensão.
Mesmo tendo acesso às linhas 2 e 3, muitas vezes, era pelas linhas 10 e 11 que a minha jornada pelos trilhos começava ou terminava. Sinto que vivi uma dimensão paralela. E, com as privatizações, não sei se poderei continuar a vivê-la.
Uma vez, num encontro com o assessor Rodrigo Assis. da CPTM, ele revelou que nunca havia pensado no Trem Metropolitano como um sistema para deslocamentos internos na capital, como algo além de um sistema pendular para conectar municípios da região metropolitana. Nunca havia. Até ler um artigo meu.
Na época, eu havia escrito um artigo dizendo que a empresa tinha 130 km de trilhos inseridos na capital paulista (cerca de metade da malha). Com a evolução no nível de serviço, eu tratava (e ainda trato) a malha como algo que exerce papel de metrô de facto, desafiando convenções técnicas genéricas e ambiguidades institucionais.
Finalmente, vou bater numa tecla que não faz muito sucesso entre a população mais politizada: o mau uso e ocupação do solo e certos fetiches imobiliários.
- Metade dos problemas dos trens está fora deles, numa urbanização que segrega;
- Trens não fazem milagres e não melhoram quando as pessoas sonham com sobrados de R$ 2 milhões ou mais e 2 carros na garagem;
- Dinheiro não resolve tudo! A malha do Trem Metropolitano atende polos muito ricos, e, nem por isso, mais visíveis ou sem estigmas ruins;
- Se o Trem Metropolitano virar uma SuperVia, morar e trabalhar em São Paulo vai ficar ainda mais caro e insalubre, mesmo para quem ganha acima da média.
A quem partilha da mesma tristeza, deixo aqui meu abraço.
Este artigo foi adaptado, revisado e corrigido a partir de uma publicação para o Instagram.
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