Por Caio César | 12/08/2026 | 8 min.
No calor da mobilização que culminou na paralisação parcial das linhas 11-Coral (Palmeiras·Barra Funda-Estudantes), 12-Safira (Brás-Calmon Viana) e 13-Jade (Eng. Goulart-Aeroporto·Guarulhos), o tabloide conservador Estadão decidiu que seria de bom tom publicar um editorial a respeito, intitulado “Greve irresponsável”. Quem gosta de bater, também precisa saber apanhar. Vamos ao exercício.
De partida, o Estadão tenta esvaziar a legitimidade da greve sob o pretexto de que teria sido política, como se o momento atravessado pela CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e seus trabalhadores, não fosse, de maneira óbvia e escandalosa, eminentemente político, no bojo de uma série de decisões que têm sido suportadas de forma mais ou menos silenciosa há, pelo menos, quase uma década.
Na visão do jornal, a decisão de conceder as linhas é correta, reforçando a assimetria de poder que existe entre o governador, o reacionário e extremista Tarcísio de Freitas, do partido conservador Republicanos, e os grevistas.
O editorial é explícito: se Tarcísio disse que dialogou, então, ele dialogou. E dialogou muito bem. Já os grevistas foram irresponsáveis e contribuíram para reforçar a agenda desestatizante. Também é explícito ao tratar vitória eleitoral como legitimidade homogeneizante, como se 100% da população tivesse votado no governador e anuído com seus planos. Reducionismo perigoso.
O Estadão não só distorceu o tempo, esgarçando o tamanho da greve, como também foi flagrantemente omisso: nas entrelinhas do editorial, as concessões soam como uma verdadeira panaceia, na qual tudo é paradisíaco.
Coisa de gente canalha.
Com a unificação da luta contra a privatização das estatais Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), Metrô (Companhia do Metropolitano de São Paulo) e CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), há a expectativa de greve conjunta em 3 de outubro, na próxima terça-feira. Nos muitos esgotos cibernéticos que insistimos em rotular como “redes sociais”, diferentes internautas defendem que a greve é um excelente pretexto para defender a privatização das empresas, sobretudo do Metrô e da CPTM.
A imprensa, que não é exatamente uma organização comunitária, pouco capitalizada e alijada dos bastidores da política concreta, com seus assinantes e empresários com capacidade de dirigismo, não tem conseguido esconder os problemas.
Falhas nas concessionárias privadas são recorrentes e não há como não noticiá-las. O G1 cravou, há cerca de um mês, a manchete “Falhas nas linhas de trens e metrôs de SP crescem 27% em 2026, e média passa de uma ocorrência por dia”; enquanto o UOL, há dois meses, disparou “MP abriu três investigações sobre serviços da ViaMobilidade em trens de SP”.
Em 2023, a Folha de S.Paulo destacou o resultado questionável da privatização das linhas 8-Diamante (Júlio Prestes-Itapevi-Amador Bureno) e 9-Esmeralda (atualmente, Osasco-Varginha): 166 falhas acumuladas já no primeiro ano. Três anos depois, período no qual o MP (Ministério Público) celebrou um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) que resultou numa indenização de R$ 150 milhões e alteração no cronograma de investimentos (comprometendo um volume superior a meio milhão de reais, a serem adiantados), novas suspeitas de negligência voltaram a ser ventiladas pelo império dos Marinho.
Quando o Estadão afirma “não faz muito tempo, o governo Tarcísio de Freitas, acertadamente, concedeu as linhas à iniciativa privada”, há um pequeno jogo de palavras, que nega não só os termos de concessão do trio de linhas que corta a Zona Leste e o Alto Tietê, mas também as concessões anteriores. Não há, como parece sugerir o pasquim da família Mesquita, uma atmosfera de ineditismo, pioneirismo ou arrojo.
Cabe ainda salientar, como já havia sido pincelado por este Coletivo após o debate promovido pela Bandeirantes, que a crise na qual a greve eclodiu é muito maior. Entrelaçam-se aqui concessões federais que, no calor dos anos 1990 e das reformas ligadas ao Plano Real e à minimização do Estado Brasileiro, destruíram qualquer perspectiva de fortalecimento de trens de passageiros no interior, arrastando São Paulo para uma espécie de buraco institucional, no qual aditivos, repactuações e, pasme, até devoluções de trecho, colidem com um Brasil lobotomizado e apático, sem capacidade efetiva de ação promotora de bem-estar.
A noção de correção erguida pelo Estadão é profundamente mau-caráter e negacionista. A experiência da privatização ferroviária, independente do modelo adotado (alienação, concessão comum, concessão administrativa, concessão patrocinada, entre outros), beira o macabro. Rotular a concessão das linhas 11, 12 e 13 como acertada é pura premissa ideológica. O pasquim foi rasteiro e, munido de um pretenso dever cívico, não passou de um bajulador patético.
Enquanto o editorial evidencia quão capacho um jornal pode ser, a mesma população que supostamente estava sendo defendida fica refém de um descompasso: as linhas da estatal “acertadamente” foram concedidas, mas a concessionária fruto da decisão “acertada” ficou de molho durante a greve. Ninguém quis nem mesmo sugerir uma contingência que a envolvesse, nem o governo, nem seus puxa-sacos.
Terminada a greve, a situação nas linhas está longe de ser confortável. Como argumenta o engenheiro Luís Kolle, há um desarranjo: “a competência da CPTM passa a operar sobre um ambiente físico, tecnológico e organizacional que não foi desenhado por ela, nem estruturado segundo sua lógica histórica de funcionamento”. Foram as falhas ou eventos fora dos padrões que historicamente associamos à CPTM, conforme capturas do Direto dos Trens desde a greve:
- Linha 7-Rubi:
- 07/08/2026, 11h16: Devido a uma falha no sistema de sinalização entre as estações Franco da Rocha e Francisco Morato, os trens da Linha 7-Rubi circulam com velocidade reduzida e maior tempo de parada;
- 07/08/2026, 13:16: Devido à manutenção corretiva, trens circulam em via única entre Botujuru e Campo Limpo Pta, com velocidade reduzida e maior tempo de parada entre Fco. Morato e Jundiaí. Transferência em Fco. Morato;
- 12/08/2026, 11:20: Devido à falha de sinalização, em decorrência de furto de cabos, os trens circulam com velocidade reduzida entre as estações Botujuru e Baltazar Fidelis.
- Linha 8-Diamante:
- 04/08/2026, 11:45: Devido à atividade de manutenção programada, os trens da Linha 8-Diamante circulam com maiores intervalos entre as estações Barueri e Itapevi;
- 05/08/2026, 12:32: Devido à atividade de manutenção programada, os trens da Linha 8-Diamante circulam com maiores intervalos entre as estações Barueri e Itapevi.
- Linha 9-Esmeralda:
- 04/08/2026, 17:07: Devido a uma falha no sistema de sinalização na região entre as estações Hebraica-Rebouças e Cidade Universitária, os trens da Linha 9-Esmeralda estão circulando com maiores intervalos nas respectivas estações.
- Linha 10-Turquesa:
- Sem falhas ou anormalidades.
- Linha 11-Coral:
- 06/08/2026, 06:23: Devido a Problemas Técnicos , os trens da Linha 11 - Coral estão circulando com intervalos maiores entre as Estações Palmeiras-Barra Funda e Estudantes .
- 08/08/2026, 21:43: Devido a Problemas Técnicos , os trens da Linha 11 - Coral seguirão até a Estação Luz . Para continuar a viagem, faça a transferência para a Linha 10 - Turquesa da CPTM.
- 08/08/2026, 22:46: Devido a Problemas Técnicos / os trens da Linha 11 - Coral / seguirão até a Estação Luz // Para continuar a viagem / faça a transferência para a Linha 10 - Turquesa da CPTM. O serviço expresso aeroporto esta sendo realizado entre as estações Luz e Aeroporto de Guarulhos.
- 08/08/2026, 22:49: Devido a Problemas Técnicos / os trens da Linha 11 - Coral / seguirão até a Estação Luz // Para continuar a viagem / faça a transferência para a Linha 10 - Turquesa da CPTM. O serviço expresso aeroporto esta sendo realizado entre as estações Luz e Aeroporto de Guarulhos.
- Linha 12-Safira:
- 06/08/2026, 06:22: Devido a Problemas Técnicos , os trens da Linha 12 - Safira estão circulando com intervalos maiores entre as Estações Brás e Calmon Viana;
- 11/08/2026, 06:12: Devido a Problemas Técnicos no Sistema de Energia , os trens da Linha 12 - Safira estão circulando com intervalos maiores entre as Estações Brás e Calmon Viana;
- 11/08/2026, 08:03: Devido a Problemas Técnicos no Sistema de Energia , os trens estão circulando com maior intervalo entre as Estações Brás e Calmon Viana . Como opção a CPTM está disponibilizando linha de ônibus especial entre as Estações Comendador Ermelino e Tatuapé.
- Linha 13-Jade:
- Sem falhas ou anormalidades.
Como podemos constatar, durante a greve, numa parte da malha sem conexão física com as linhas 11, 12 e 13, os serviços da Motiva foram afetados por falhas ou manutenções corretivas dentro da janela da operação comercial. Pateticamente, como simplifica o Estadão, “basta trocar de concessionária”. Resta saber se estaremos vivos quando o bastão mudar de mãos.
A CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) nasceu originalmente com a missão de maquiar a precariedade das linhas e entregá-las à iniciativa privada. O plano era ridículo, mas deixou bons frutos com o Integração Centro, responsável por transformar as estações Luz e Brás, além de promover outras intervenções menos visíveis. Legenda: Diagrama da rede de transporte metropolitano com o Integração Centro. Fonte: captura mais recente da Wayback Machine para quadro no site oficial do consórcio formado por Enger Engenharia e PCI, 30 de janeiro de 2005. Clique sobre a imagem para abri-la e ampliá-la Ao contrário do que alguns podem estar pensando, o Integração Centro se arrastou por mais de duas décadas e envolveu o Banco Mundial, que forneceu não apenas o empréstimo, mas também a doutrina econômica e política para a empreitada. A empresa Maubertec, responsável pelo projeto básico envolvendo estudos de traçados e projetos geométricos, torna pública sua participação num trabalho que consumiu, ainda em dezembro de 1993, Cr$ 19.962.467,70, antes do Plano Real, portanto.
Finalmente, o jornal sugeriu que o mau desempenho do Estado é incorrigível. Mais canalhice. Uma das formas de buscar a correção é não eleger gente da laia que o editorial busca blindar, como Tarcísio de Freitas. Outra forma é, mais uma vez, não ter memória curta: os trens, quando sob responsabilidade de outras estatais, já passaram por longos períodos de desinvestimento e precarização. A CPTM provou que, mesmo com estrutura provisória, excesso de terceirização e sob a ameaça constante da própria extinção, com um certo volume de recursos do erário e bons funcionários concursados, é possível virar o jogo.
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