Ônibus em São Paulo: outra audiência “mais do mesmo”?

Por Caio César | 23/06/2026 | 5 min.

Este conteúdo foi produzido com apoio de IA generativa (Nível 1). Saiba mais.
Legenda: Ônibus na Linha 574J-10 na tarde do dia 03/01/2026. Falha exigiu desembarque próximo à rua Angá
Pouco divulgada, prevista para acontecer numa noite chuvosa e, pior ainda, sem estratégia política clara, audiência supostamente falará de um sistema de ônibus que perdeu partidas e piorou. Vagueza faz parecer que organizadores pouco ou nada aprenderam em meio à crise de financiamento do transporte público, agravada drasticamente pela pandemia

Graças à gentileza do nosso membro Lucian De Paula, soube que o vereador Nabil Bonduki (PT) realizará uma audiência pública na data de hoje. A iniciativa é um esforço conjunto com a vereadora Renata Falzoni (PSB). Estranhamente, não consegui encontrar uma divulgação recente da audiência nas redes sociais dos dois mandatos (considerando X e Instagram). O evento parece ter circulado apenas pelo WhatsApp, o que não inspira lá muita confiança, lamento.

A audiência parece ligada ao CMTT (Conselho Municipal de Trânsito e Transporte), que não tem muita visibilidade ou grandes poderes (na verdade, é quase invisível e bem fraco). O que se sabe é que o poder público estará presente, o que também não diz muita coisa, pois o mesmo poder público também está presente em conselhos, conduz processos participativos duvidosos e é refém das vontades do mandatário da vez. Não é como se o corpo técnico fosse contrariar um prefeito que não tem interesse na priorização de ciclovias, faixas exclusivas e corredores de ônibus.

Infelizmente e, de qualquer forma, tive pouco tempo para me preparar. As inscrições para participação virtual já estavam encerradas quando o Lucian divulgou a audiência, e, já sabendo que não conseguirei comparecer, decidi transportar alguns dos comentários que fiz internamente, além de acrescentar muitos outros.

Em linhas gerais, eu até queria ir na audiência, porém, não sei se qualquer posicionamento meu seria valorizado, mesmo me colocando como representante do Coletivo, além do mais, eu já compareceria incomodado: na minha visão, não faz sentido falar de qualidade, como se fosse um pudim. A audiência não versa sobre um produto de prateleira, industrializado, previsível.

Consequentemente, suspeito que a chance dessa audiência ser performática e com premissas simplificantes é imensa. Assim como acontece nas discussões em torno do sistema de trilhos, se não existir bom senso em relação ao uso e ocupação do solo, não adianta gastar horas com platitudes. O ônibus pode ser de ouro, mas jamais será capaz de superar as contradições do mau uso e ocupação de solo da cidade.

O que seria problema de “qualidade”, no sentido de indicador contratual, não depende de audiência: é dado coletado, dado tratado por máquina, dado subsidiando ação humana e ação humana punindo.

Ora, não são x partidas, em y horários? Os dados das linhas no padrão mais disseminado já não são públicos? Não tem todo um mecanismo do sistema Olho Vivo voltado para o desenvolvimento de aplicativos? Então…

Claro, para além dos elementos que mencionei até agora, surgem aspectos que são mais difíceis de capturar por meio de indicadores, mesmo com reclamações e solicitações no SP156: limpeza, integridade do acabamento, etc. Para estes, a conta é simples: tem efetivo? Sabendo o efetivo, a capacidade de fiscalização pode ser dimensionada. Até onde eu sei, não tem. Arrisco dizer que a capital paulista precisaria de alguns anos para fiscalizar tudo, pois não tem gente para fiscalizar.

Em 2025, a administração de Ricardo Nunes (MDB) disse à Folha que as reclamações cresceram devido à utilização de dados de posicionamento geográfico baseados em satélite, ou seja, cruzou GPS com GTFS. Não fica claro, porém, se o efetivo tem dado conta: em 2013, o município tinha 15 mil ônibus contratados e 663 fiscais alocados (um fiscal para cada 22 ônibus). De 2013 para cá, evoluímos em matéria de dados públicos e mecanismos de fiscalização cidadã e transparência? O site da SPTrans (São Paulo Transporte) trocou o vermelho pelo verde recentemente, mas continua essencialmente o mesmo há uma década.

A chamada da audiência mencionou “ônibus lotados, mais espera e menos frota”. Totalmente baseado em indicadores óbvios e com lastro contratual. Lanço mais uma aposta: a possibilidade disso aqui ter aparecido na chamada, mas não ter motivado um mapeamento prévio da situação pelos mandatos, é, também, imensa.

Finalmente, temos as questões impopulares para um mandatário que está tentando subir mais um degrau na escada política: vai lutar em prol da racionalização da rede, reduzindo sobreposições e vícios de longa data? Vai lutar em prol de um melhor monitoramento, fortalecendo a necessária priorização dos ônibus no sistema viário? Racionalizar envolve cortar linhas, o que é impopular; garantir prioridade adequada para os ônibus envolve tirar faixa de carro, o que é impopular — basta conferir os comentários no vídeo do Nabil sobre a Ricardo Jafet no Instagram.

E o próprio Nabil é, em parte, culpado por aqueles comentários, porque faz uma discussão com viés ruim e legitima o estilo de vida que coloca carro na rua, algo que eu já cansei de apontar por aqui (ou cansei de ver e, para me poupar, deixei de apontar publicamente, quando muito, espumando pelos porões do Telegram do Coletivo).

Moral da história: os ônibus podem ser limpos e confiáveis, sem ficarem presos no trânsito ou estarem infestados de baratas, mas não fazem mágica. Bairros a 10, 20 ou 30 km dos principais locais de trabalho continuarão exatamente nos mesmos lugares. E é aí que surge a linha tênue quando queremos falar sobre a qualidade de um sistema ou meio de transporte: é uma noção que pode valer para muitas coisas, mas que não é capaz de dobrar o tempo e possui limites físicos.

A audiência de hoje, 23, corre o risco de mirar nos problemas fáceis, monitoráveis e fiscalizáveis, sem disputar o modelo de contratação e sem fazer a conexão mais necessária e aguardada: aquela entre serviço e território. Um sistema de qualidade depende de uma cidade de qualidade, menos segregada e cínica. Os “respiros” que vereadores progressistas, incluindo Nabil Bonduki, não raramente defendem em bairros centrais com densidades de periferias ricas, cobram seu preço.

Observação: em diferentes passagens deste artigo, optei por utilizar expressões como “suspeito”, “arrisco” e “aposto”. É um comedimento gentil da minha parte. Eu estou dando o benefício da dúvida para mandatos que não oferecem o lastro de que eu preciso para transmitir mais confiança do que estou transmitindo.


Colaborações: Lucian De Paula (divulgação da audiência e discussão)



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