Debate insosso encontra redes sociais repletas de idiotas

Por Caio César | 10/08/2026 | 8 min.

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Legenda: Acompanhamento de eleições do COMMU: governo paulista 2026
Afinal, estamos numa eleição para governador ou numa espécie de concurso de personalidades fabricadas com os piores insumos que mentes humanas podem oferecer?

Índice


O clima pós-debate é de profunda imbecilidade. A rivalidade é puramente superficial. O caráter propositivo se perde em meio a rótulos como “pior prefeito de São Paulo”, “pior ministro”, “Pedágio de Freitas” etc.

Legenda: Vídeo com a íntegra do debate no canal Band Jornalismo no YouTube. Até o momento, número de visualizações ultrapassa o meio milhão

Tudo isso é uma formidável burrice. Se poderia haver lastro para a trajetória política e pessoal, ele é perdido (ou desprezado) por premissa comportamental. A disputa é entre achismos. O rótulo que pegar, pegou.

Consequentemente, logo após o primeiro debate, o que vemos é gente gritando e babando nas redes sociais como se fossem primatas enraivecidos. Enquanto a direita brasileira, muito carente de boas figuras intelectuais, pode continuar babando e gritando, o mesmo não deveria acontecer a partir do momento em que se cruza a linha do centrismo. Do centro para a esquerda, não dá para tratar qualquer discussão política como uma espécie de pântano de ideias.


Méritos

Exemplo 1

Fernando Haddad (PT) não só não foi o pior prefeito de São Paulo, como os mandatários posteriores são dignos de pena. Vamos refrescar algumas memórias: qual a avaliação dos governos municipais de João Dória (então, PSDB, atualmente sem partido), Bruno Covas (PSDB, morto em 2021) e Ricardo Nunes (MDB)?

Nunes, apesar de se parecer com um potente repelente de carisma, foi reeleito e sua passagem pela prefeitura tem sido permeada por escândalos pulverizados em múltiplas frentes (tanto que respingou no debate), a saber:

A plateia riu quando Tarcísio reiterou que pode ser enxergado como uma espécie de parceiro de Nunes. O próprio Tarcísio terminou com um elogio constrangedor, com um sorriso discreto, como se estivesse contendo o riso. Talvez nem o governador acredite na suposta elevada qualidade do prefeito da capital.

Exemplo 2

Os pedágios não são, isoladamente, um mecanismo lesivo. A discussão sobre custeio e, até mesmo, sobre dissuasão do uso do automóvel, é extremamente pertinente. Entretanto, num estado que permitiu o sucateamento sistemático de suas ferrovias e viu desaparecer os trens de passageiros de longo e médio percurso, o pedágio adquire mais facetas, uma vez que os ônibus são penalizados e não há alternativa com foco em justiça social, ambiental e econômica. Parte substancial da malha ferroviária é vista como ultrapassada por figuras como Renan Filho (MDB), que integra o mesmo governo federal no qual Fernando Haddad estava até começar a disputar o governo paulista.

Friamente, Tarcísio de Freitas (Republicanos) impõe pedágios tanto quanto outras figuras da política brasileira, incluindo figuras ligadas, direta ou indiretamente, ao partido de Fernando Haddad. Não há, hoje, de maneira responsável, qualquer discussão sobre eliminação de pedágios, nem qualquer cuidado sobre o impacto do sistema rodoviário em termos de corrosão orçamentária (ou seja, se estamos deixando de custear trens, escolas e hospitais para bancar um sistema de circulação que provavelmente é o pior possível).

O Diário de Mogi tem encampado a luta (de classe média e alta, aparentemente) contra o pedágio na rodovia Mogi-Dutra. Nada de errado em questionar, ainda que veladamente, o pequeno estelionato eleitoral de Tarcísio de Freitas (Republicanos) que havia prometido interromper o processo iniciado no governo de Rodrigo Garcia (PSDB), bem como o produto direto da privatização a partir de uma concessão, que é a construção de uma ou mais linhas de receita.

Haddad deixou de ser prefeito em dezembro de 2016. Estamos em agosto de 2026. Uma década depois, uma multidão de imbecis diz que ele foi o pior prefeito. Um curioso caso de prefeito tão ruim, que o comentário predominante não costuma vir acompanhado de qualquer argumento adulto. Para piorar, há um profundo cinismo em torno de temas como ordenamento territorial (plano diretor e zoneamento) e Vale do Anhangabaú (estudo conceitual inicial do escritório de Jan Ghel, “doado” pelo Banco Itaú), no qual a esquerda tenta limpar a barra do prefeito por resultados diretos de sua administração (alguns deles, positivos, como a maior orientação ao transporte no desenvolvimento imobiliário, bem como o fomento a unidades menores, mais acessíveis unitariamente apesar da pior relação m² por Real gasto).

Já Tarcísio foi ministro de 2019 a 2022 e governa o estado desde 2023. Sua passagem pelo governo de Jair Bolsonaro (PL, atualmente preso) focou na concessão de infraestruturas, incluindo a elaboração de marco regulatório de caráter duvidoso para ferrovias privadas, o qual está sendo revisto após baixa adesão.

Legenda: Haddad declara publicamente que contratos federais para ferrovias exigiram revisão. Segundo o candidato, Tarcísio celebrou contratos lesivos ao erário. Trecho de entrevista publicado em 27/07/2026 no canal da rádio Itatiaia no YouTube

Tarcísio leiloou rodovias, aeroportos e terminais portuários. O governador afirma que gerou empregos e economizou recursos, enquanto seu principal opositor tem apontado recentemente que os contratos para antigas malhas ferroviárias da SR-3 (3ª Superintendência Regional), da SR-4 (4ª Superintendência Regional) e da Malha Paulista da extinta RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.) apresentaram falhas que exigiram revisões.

Legenda: Mapa da Malha Oeste, recuperado dos anexos ao contrato de concessão. Corredor ferroviário Brasil-Bolívia agoniza há décadas. Clique na imagem para abri-la e ampliá-la

Não cabe aqui se estender sobre a situação da Malha Oeste (como é conhecida a malha da SR-10), mas esta seguiu patinando quando Tarcísio de Freitas foi ministro, até chegarmos aos dias atuais, com a historicamente incompetente Rumo efetivamente devolvendo o bagaço dos ativos, supostamente passíveis de relicitação. Supostamente, uma repactuação, como a feita na Malha Paulista em 2020 (e depois revisada em 2023), que também é operada por outra pessoa jurídica da Rumo, seria a saída segundo o Valor Econômico. Não rolou e, aparentemente, com a baixaria que estamos vendo, não dá para esperar grandes coisas, dentro ou fora dos debates.


Lacunas

Desinteresse

Dada a estrutura dos embates nas redes, temas como os que foram pincelados nos dois exemplos anteriores acima são virtualmente impossíveis de serem discutidos civilizadamente. E mais ainda: é razoável supor que o volume de chorume seja muito superior, em termos de engajamento, do que qualquer métrica ligada à audiência do debate realizado pela Band na noite de ontem, 9.

A Folha, aliás, cravou a manchete “Debate para governador de SP marca baixa audiência na Band e perde para João Kleber” em texto publicado na coluna Outro canal. Trágico, ainda que pinte apenas parte do quadro.

É fundamental que um maior número de pessoas fale sobre assuntos ligados às obrigações de um governador. No caso de São Paulo, aparentemente, explosão e vazamento de gás, incêndio e fumaça, ou mesmo a criminalidade (mesmo em Pinheiros), não possuem a devida relevância. Projeções sobre candidaturas parecem superar os desafios do dia a dia.

Privataria e omissão

São Paulo é um estado que, há bastante tempo, não promove a justiça social necessária. Suas maiores regiões metropolitanas estão repletas de favelas, loteamentos insalubres e vastos conjuntos habitacionais carentes de urbanidade, enquanto a articulação entre o interior e a capital é fortemente dependente de rodovias venenosas aos tecidos urbanos que deformam e pressionam. Há quem aponte uma ausência deliberada, a partir da qual fica perceptível a complexidade e a fragilidade de periferias que não se encaixam entre uma célula e outra de alguma planilha.

No que diz respeito a este Coletivo, é difícil não criticar os últimos governadores, que foram da centro-direita à extrema-direita, incluindo o extremista Tarcísio. O que separa Tarcísio de alguns de seus antecessores é que a promoção da privataria atingiu o sistema de trilhos com ainda mais crueldade.

Retomando a provocação envolvendo o mercado imobiliário, como seria um futuro arrasado pela privatização de todo o sistema metroferroviário? Mais pessoas precisariam madrugar ou postergar o expediente, tentando driblar horários de pico ainda mais caóticos? O êxodo rumo ao interior paulista, parcela do estado sabidamente indutora do uso indiscriminado do automóvel, ganharia ainda mais força? Imóveis nas localizações com maior e melhor oferta de trabalho disparariam de preço, pois seriam enxergados como uma das poucas alternativas à precarização da Companhia do Metropolitano de São Paulo (METRÔ) e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM)?

Só isso, no contexto da RMSP (Região Metropolitana de São Paulo), que abriga quase metade do PIB (produto interno bruto) e da população do estado, já é um elemento suficientemente forte para questionar sua reeleição.

Obviedades na RMSP

Dos debates, de preferência, com pressão do eleitorado, precisam sair propostas e compromissos. Um compromisso com a reestatização de cinco antigas linhas da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) seria extremamente bem-vindo, bem como uma recuperação do programa de empreendimentos da extinta EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos), uma vez que é flagrante a escassez de corredores de ônibus metropolitanos.

Babar e gritar nas redes não apaga incêndios em trens, nem interrompe vazamentos de gás durante obras de saneamento básico. Afinal, estamos numa eleição para governador ou numa espécie de concurso de personalidades fabricadas com os piores insumos que mentes humanas podem oferecer?




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