Artigos publicados

Trens não operam no vácuo e merecem mais conversas adultas

Acredito que problematizar o uso e ocupação do solo é indispensável para a sociedade romper com discursos eleitoreiros e oportunistas envolvendo o transporte sobre trilhos. A natureza do transporte sobre trilhos pode ser descrita como indelével e impactante, ou seja, dependente de obras caras, demoradas, que causam grandes incômodos e transformam a paisagem de uma maneira praticamente irreversível. A natureza do transporte sobre trilhos, entretanto, não torna a malha homogênea. A distribuição dos trilhos pelo espaço não se traduz numa mesma capacidade de acesso ou numa mesma conectividade. Não se traduz, nem mesmo, numa mesma qualidade urbanística das cercanias (ou seja, das imediações das linhas) ou de uma taxa de atividade similar (relação entre pessoas residentes e empregos gerados localmente).

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A rede invisível

Introdução Em 22 de maio, detectei que um trabalho potencialmente interessante apareceu no Teses USP, mas, ao folheá-lo, fiquei com a impressão de que ele falhou na interpretação da malha. A seguir, quero discutir o que pode ser considerado um conjunto de impressões preliminares e, ao mesmo tempo, parte de uma leitura que talvez não volte a ser retomada. Não prometo uma segunda ou terceira parte sobre o trabalho que abordo a partir deste ponto.

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Cinismo, hipocrisia e habitação social

Problema como solução de outro problema Uma questão recente que muito deveria incomodar diz respeito às fraudes com habitação social. Este, ao contrário do que pode parecer de imediato, principalmente quando comparado a outras questões nas quais o Coletivo se debruça, como concessões que reduzem a qualidade dos serviços e regiões metropolitanas que não funcionam pelo excesso de municipalismo e ausência de mecanismos de governança, é um problema excelente. Por que é excelente? É excelente devido à materialidade: as unidades foram construídas. Num contexto em que um dos principais nomes da arquitetura e do urbanismo da USP (Universidade de São Paulo) não teve vergonha de dizer que “todo mundo quer poder morar numa casa, ou num bairro que tenha uma verticalização não tão grande”, há que se questionar o tipo de política pública que os nomes ligados ao LabCidade são capazes de produzir, principalmente quando romantizam favelas e são levemente antagonizados por um de seus colegas, ou quando já afirmaram num encontro em maio de 2025 que…

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Do deserto à baía do silício, urbanização difusa e renda concentrada cobram seu preço

Prólogo Dois sistemas ferroviários modestos nos Estados Unidos (um no deserto do Novo México, outro às margens da Baía de São Francisco) servem de ponto de partida para uma discussão que, no fundo, também pode ser sobre São Paulo. Em 2022, Ray Delahanty produziu um panorama em vídeo sobre sistemas ferroviários estadunidenses, entre os quais dois que o COMMU discutiu internamente sem nunca publicar a respeito. Em 2026, um vídeo mais aprofundado sobre um deles revelou algo mais incômodo: a relação direta entre proteção patrimonial, política tributária e expulsão habitacional.

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Discutir cidades requer mais nuances

Recentemente, enquanto buscava novidades no mercado imobiliário, acabei me deparando com uma reportagem do Valor Econômico publicada em janeiro. Intitulado “Arquitetos querem mais do que seus ‘carimbos’ nos prédios”, o texto consulta arquitetos e figuras ligadas à incorporação, sendo oportuno para um coletivo que, como o nosso, trata da mobilidade no espaço que pode ter sido ou estar sendo transformado pelas figuras entrevistadas. De partida, cito a fala de Igor Melro, diretor comercial da Porte Engenharia e Urbanismo, que tem atuação relevante no segmento de alto padrão do Tatuapé e do Jardim Anália Franco. Melro revela uma tensão entre ousar e lucrar. A vanguarda pode ser um obstáculo e não há como tentar ousar operando no prejuízo.

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As cortinas transparentes do teatro da teimosia

Na semana que se passou, tivemos dois pequenos dramas de classe média no microscópico círculo que mescla urbanismo, política e cinismo — um círculo onde o comportamento NIMBY (Not In My Backyard) encontra abrigo em vocabulário progressista: moradores que se opõem a projetos de adensamento em suas vizinhanças, mesmo reconhecendo a necessidade deles em outros locais. Primeiro, Nabil Bonduki continuou sua epopeia em torno das esvaziadas galerias comerciais da rua Augusta; segundo, uma série de figuras, incluindo nomes como Miguel Falabella e a revista Veja São Paulo, choraram por um teatro que não havia sido demolido, com base numa dramatização renderizada com auxílio de inteligência artificial.

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Situação da Enel expõe drama do estado mínimo

A situação da antiga estatal italiana, hoje uma multinacional, Enel (que significava Ente nazionale per l'energia elettrica), parece expor muito mais do que a incompetência (deliberada ou não) de uma operação privatizada, mas também a deterioração das capacidades de Estado. Ontem, 15, a RMSP (Região Metropolitana de São Paulo) ainda tinha quase 100 mil imóveis sem luz, segundo o G1. De um lado, o governo municipal encabeçado por Ricardo Nunes parece minorar a importância do manejo arbóreo e, mais ainda, a responsabilidade difusa quando há compartilhamento: a prefeitura precisa podar ou remover, mas as árvores podem estar em contato com a rede elétrica concedida à Enel. A coordenação entre a prefeitura e a distribuidora é claramente deficiente.

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Falha na Linha 11 expõe o vazio institucional que antecede as novas concessões

Falhas na Linha 11-Coral (Palmeiras·Barra Funda-Estudantes) são velha conhecida da população que depende da principal ligação entre a região central da capital paulista e uma série de municípios do Alto Tietê. A falha que teve início em 25 de novembro, persistindo ao longo do dia seguinte, porém, merece algumas reflexões adicionais. Em virtude do programa de desestatização do governo paulista, a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), responsável pela linha ainda sob a Secretaria dos Transportes Metropolitanos, passa por fuga de cérebros e de mão de obra, seja pelas ofertas de vagas das novas operadoras privadas, seja pelo programa de demissão que incentiva a saída de quadros. É sabido que mais de quatro mil indivíduos poderiam ser elegíveis para o programa, porém a participação, que poderia ocorrer até maio deste ano, permanece desconhecida publicamente.

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A cidade não cabe no sobrado

Introdução No final de outubro, Vicente Vilardaga, em sua coluna “Andanças na metrópole”, publicada pela Folha de S.Paulo, escreveu artigo intitulado “Os problemas causados pela verticalização desenfreada em São Paulo”. Infelizmente, aprendi que, no ativismo, não basta defender um ideal, é preciso defendê-lo de infinitas maneiras e infinitas vezes. Nada do que direi a seguir é uma novidade, mas talvez apresente uma roupagem diferente, capaz de contribuir positivamente para um debate que, com o perdão da franqueza, tem se perdido na romantização de paisagens bastante específicas.

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Paralisia e a cidade contra a cidade

Contextualização Nos últimos meses — ou seriam anos? —, tenho observado padrões preocupantes e saturado meus companheiros deste Coletivo com mais ou menos os mesmos assuntos, ainda que a roupagem pareça diferente num ou noutro momento. Como todo trabalho voluntário, o que faço aqui acaba entrelaçado com a minha vida, não se resumindo meramente a trabalho (de campo, de produção textual, fora momentos torturantes à frente do Instagram). Na maior parte do tempo, eu também lido com decisões difíceis, às vezes, paralisantes.

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