Por Caio César | 09/09/2015 | 11 min.
Índice
Introdução
Segundo notícia de 26/06/2013 do Blog Mural da Folha de São Paulo, os passageiros e moradores da região esperam há quase 10 anos por um terminal de ônibus, é o que releva o seguinte fragmento:
Desde 2006, projetos de um terminal são divulgados pelas prefeituras dos municípios. Entretanto, não há prazo para a conclusão. “Faz oito anos que eu escuto isso. Não acredito mais”, afirma o orçamentista gráfico Cléo Frari, 32.
A situação tem mudado, o que em parte se deve ao início das obras para o Corredor Metropolitano Itapevi-São Paulo da EMTU, que acabaram exigindo adequações no sistema viário da região. Quando visitamos a estação em 17/08/2015 com o intuito de realizar um levantamento fotográfico e verificar o andamento da obra, apuramos que o trecho sentido Carapicuíba da Avenida dos Autonomistas, fronteiriço à estação da CPTM, havia sido reaberto para o tráfego de veículos recentemente, já no outro sentido, permaneciam interdições.
No passado a Praça dos Emancipadores se parecia com uma espécie de praça em más condições e com estacionamento improvisado, que por sua vez se somava aos ônibus e pessoas se movimentando de um lado a outro, havendo também presença de comércio ambulante. Hoje já não há mais qualquer sinal da praça e os automóveis ficam estacionados em ruas nas proximidades.
Diagnóstico
Km 21 é uma estação de integração por excelência, justamente pelo caráter estratégico que destacamos no início do artigo. Vejamos a seguir como fica a situação de cada modo de transporte.
Bicicletas
As bicicletas estão presentes nos gradis da Linha 8-Diamante e na Avenida dos Autonomistas. Na segunda audiência pública sobre o corredor da EMTU, a apresentação menciona no item IV, para o trecho Jandira-Km 21, a existência de um plano voltado às bikes, incluindo infraestrutura cicloviária e bicicletário. Acompanharemos a implantação do corredor e temos certeza de que o bicicletário, se implantado adequadamente, ficará cheio, a exemplo de vários outros nos subúrbios.
Parecer: satisfatório diante das informações publicamente disponibilizadas pela EMTU, contudo, temos dúvidas sobre a implantação das ciclovias. Basta assistir, por exemplo, o vídeo a seguir, o mais recente até o momento da publicação do artigo:
Automóveis
A estação da CPTM tem passando por cima de suas plataformas o Rodoanel, o qual possui acesso para veículos que desejam acessar Osasco e Carapicuíba. A modernização da estação deve contemplar uma área de estacionamento, devidamente dimensionada, podendo ser conveniente adotar um edifício-garagem, tipo de coisa que não existe até hoje no programa E-Fácil de estacionamentos. Como receita extra-tarifária, o mesmo edifício pode contar, na área de integração ou em área devidamente concebida com tal finalidade, mas de acesso conveniente aos transeuntes, com estabelecimentos comerciais, contando com lanchonete, doceria, lotérica e outras amenidades do gênero.
Observação: já exploramos a possibilidade de um serviço de ônibus para integração de diferentes pontos da malha da CPTM, sendo a Estação General Miguel Costa mencionada como um dos nós de integração.
Parecer: insatisfatório; o tipo de infraestrutura em questão deveria estar incluído no projeto de modernização da estação, mas não está. Dados do edital e do processo estarão disponíveis na próxima subseção.
Ônibus
Atualmente os passageiros dos ônibus municipais de Osasco e Carapicuíba e dos intermunicipais da EMTU estão utilizando: (i) um terminal provisório e (ii) pontos de ônibus com pouca sinalização e nível nulo de conforto.
Por meio de levantamento de informações públicas fornecidas pela EMTU e empresas responsáveis pelas linhas de ônibus em Osasco e Carapicuíba, identificamos que hoje há um total de 30 linhas junto à Estação General Miguel Costa, sendo que nenhuma das 21 linhas intermunicipais faz terminal na estação, enquanto 7 das 9 linhas municipais fazem terminal na estação. Para todos os casos a situação é inadequada devido à falta de infraestrutura de integração e abrigo dos ônibus e passageiros.
É também flagrante que as linhas de ônibus não respeitam o horário de operação do Trem Metropolitano. O serviço de metropolitanos da CPTM opera diariamente das 4h à 0h00, sendo que aos sábados o funcionamento cessa apenas à 1h00. Mesmo que o passageiro seja beneficiado pelo horário ampliado aos sábados, por exemplo, não encontrará 29 das 30 linhas de ônibus nas imediações, já que apenas a 225 tem horários com maior grau de compatibilidade com a CPTM.
Podemos também observar que 6 das 31 linhas fazem menção direta a Alphaville: 390, 448, 449, 450, 496 e 579, sendo oportuno lembrar o que Mariane Falcone Guerra apontava em sua tese “Vende-se qualidade de vida”: Alphaville Barueri — implantação e consolidação de uma cidade privada:
A implantação de Alphaville foi favorecida pela abertura da Rodovia Castello Branco, que possibilitou a ligação do empreendimento ao vetor sudoeste da capital. Ainda hoje, não há uma ligação com o trem metropolitano da CPTM ou um sistema de transporte público eficaz capaz de conectar Alphaville à capital, e mesmo aos municípios do entorno.
Pode-se dizer que o elemento estruturador de Alphaville/Tamboré é o viário. Um conjunto de vias mal hierarquizadas conecta os diversos setores do empreendimento: industrial, empresarial, comercial e residencial.
Como um importante pólo comercial, empresarial e industrial, Alphaville demanda muita mão de obra, sendo que a maioria dos trabalhadores não mora nos residenciais fechados, conclusão talvez óbvia, mas que fica reforçada pelo periódico britânico The Guardian, segundo o qual Alphaville é um dos dez maiores muros do planeta. Conforme informações da VEJA São Paulo em matéria de de 25/03/2011 intitulada “Polo administrativo é a nova faceta de Alphaville”:
Com um contingente de 154.606 trabalhadores, Alphaville tem um número três vezes menor de moradores, 43.521. Os índices econômicos da população fixa são superlativos: 76,3% dos domicílios possuem renda mensal acima de 11.000 reais; em São Paulo são 16,7%. A média é de 16.724 reais — contra 3.427 reais da capital, segundo dados da Cognatis Geomarketing.
Lamentavelmente, com sua atual configuração, que pouco sofreu alterações ao longo de décadas, a Estação General Miguel Costa não configura qualquer tipo de ligação eficaz entre o sistema metroferroviário e Alphaville, se limitando a um nó de conexão entre os metropolitanos da CPTM e os ônibus intermunicipais da EMTU, sem infraestrutura adequada. Um cenário ideal poderia ter sido, quando da implantação do trecho oeste do Rodoanel, garantir a implantação de sistema de transporte coletivo baseado nas seguintes características:
- Previsibilidade e regularidade, com intervalos baixos e compatíveis com a demanda;
- Segregação em nível, de forma a não sofrer distúrbios ocasionados pela presença de veículos com menor grau de eficiência, como automóveis;
- Conforto térmico, com veículos climatizados;
- Controle automatizado e centralizado de tráfego, reduzindo aos menores níveis qualquer risco de acidente por falha humana.
Uma vez que o trecho de 32 km do Rodoanel é concessionado à empresa CCR RodoAnel e que este fora inaugurado em 11/10/2002, é vergonhosa a falta de contrapartidas para oferecer uma forma de mobilidade coletiva segura, limpa e integrada a equipamentos já existentes, principalmente quando mais de 100 mil pessoas se deslocam para lá diariamente. A baixa atratividade da Estação General Miguel Costa para acesso Alphaville se torna bastante notória quando observamos que, apesar da localização estratégica, a demanda de passageiros é de pouco menos de 20 mil em média por dia útil (dados de julho de 2015).
Observação: em 27/07/2012 o Estadão anunciava notícia intitulada “Alphaville, em SP, poderá ter acesso por meio de trem”, porém, como já havia sido adiantado pela Folha de Alphaville em 07/10/2011, o projeto de uma nova linha da CPTM, poderia sair do papel só em 2015. Até a data de publicação do artigo nenhum anúncio foi feito. Vergonhoso.
Quanto aos ônibus e a infraestrutura prevista, infelizmente a construção do terminal não tem detalhada a qualidade da integração física com a estação. O projeto do terminal do Km 21 foi executado pela Fupam e aparenta ter qualidade arquitetônica. Mas a tradicional falta de informações por parte do Governo do Estado de São Paulo torna difícil uma melhor averiguação.
Na página do empreendimento, já lincada acima, a informação se resume a um pequeno parágrafo:
Neste trecho as obras estão em fase inicial e haverá a construção do Terminal km 21 (em Osasco), que terá integração física com a CPTM, duas estações de embarque e desembarque, um viaduto em Carapicuíba e alças de acesso.
No documento com perguntas e respostas, também disponível na página do empreendimento, não foram feitos questionamentos relacionados à estação em 2012. Fizemos uma breve pergunta à Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos no Twitter:
Ainda na busca de maiores informações, nos voltamos para a CPTM e mergulhamos um pouco na burocracia. Em consulta ao edital do processo 8508110011, mais precisamente ao conteúdo da página 64, deparamo-nos com a seguinte descrição das intervenções a serem realizadas na Estação General Miguel Costa:
b) Estação General Miguel Costa: desenvolver novo projeto básico, transformando a estação em plataforma única permitindo acessada por 2 vias da Linha 8 e prevendo espaço para mais 2 vias destinadas ao futura Expresso Oeste — Sul; deverá ser reestudado o acesso sul, em função do novo posicionamento do terminal de ônibus.
Vale lembrar que o processo foi iniciado em 2011 e a falta de transparência significa que não houve divulgação por parte da CPTM de uma só planta do edifício, muito menos ações abrangentes de coleta de opiniões do público interessado.
Parecer: insatisfatório; é preciso cautela, pois não raras são as situações em que o poder público, por meio de suas empresas ou secretarias, informa que existe integração física, quando, na realidade, o usuário não tem recebe uma integração física digna, ficando exposto a intempéries, além de precisar cruzar ruas, avenidas e até calçadas movimentadas, assim a futura integração física pode seguir pelo mesmo caminho.
Trens
Apesar de ser funcionalmente satisfatória para passageiros que não possuem deficiência física ou idade avançada, a estação depende da conclusão da licitação que mencionamos anteriormente. Apenas com a licitação concluída a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos poderá fazer a contratação das obras civis.
Com o terminal novo, a demanda da estação pode subir em vista da melhor conectividade, pela existência de infraestrutura qualificada de integração entre diferentes modos de transporte (ônibus, bicicletas e trens metropolitanos, no caso). Por se tratar de uma estação inaugurada em 1979, itens de acessibilidade não foram contemplados; a estação não possui escadas rolantes, elevadores ou rampas, não possui também piso podo-tátil.
O estado de conservação da estação é bastante razoável. Não existe a passagem de uma imagem de deterioração, contudo, sua concepção foi feita há mais de 30 anos e diversas transformações aconteceram de lá para cá.
Conclusão
A Estação General Miguel Costa da CPTM revela uma grande oportunidade desperdiçada na Região Metropolitana de São Paulo, em localização mais do que estratégica, com urbanização já consolidada ao sul e um grande pólo demandador de mão de obra a norte.
O novo terminal de ônibus deverá reduzir significativamente a falta de infraestrutura para abrigar os ônibus e seus passageiros, bem como deverá permitir a guarda mais segura e confortável de bicicletas, mas não faz parte de um projeto sinérgico e muito menos dá indícios de que haverá um, mesmo a longo prazo.
A permanência da situação por tantas décadas exibe a falta de cobertura da grande mídia a respeito dos problemas da Grande São Paulo. Não existe ainda a noção de que as pessoas vivem não em uma ou mais cidades, mas em cidades que juntas, formam uma metrópole.
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