Intelectuais hipócritas contribuem para eleições frustrantes

Por Caio César | 05/10/2026 | 4 min.

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Na capital paulista, reacionarismo à esquerda afastou partidos da “política do cotidiano”. Catalisadores importantes, como habitação farta e barata, continuam sem espaço nos partidos

Eu mal consigo articular minha frustração com o resultado eleitoral, mas estou pensativo: passei os últimos anos discutindo com uma pilha de imbecis que moram em bairros centrais e caros como Pinheiros e Moema. Eram bolsonaristas? Não, eram eleitores endinheirados do PT (Partido dos Trabalhadores), do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) e do PSB (Partido Socialista Brasileiro). Um outro tipo de reacionário votando à esquerda. Gente que, sob minha ótica, mina partidos por dentro com pautas reacionárias revestidas por um progressismo teatral, com vocabulário cuidadoso e hipocrisia sofisticada.

As pautas não envolviam costumes, mas afetavam diretamente como a cidade é construída e como diferentes grupos sociais se relacionam e vivem nesse meio. O “bom gosto” e a “consciência social” desses eleitores endinheirados dificultaram a ampliação da oferta de moradia, a melhor regulação do mercado imobiliário, o acesso ao transporte de alta capacidade e a preservação das áreas verdes e represas.

Em outras palavras, não havia uma unidade para atacar transsexuais, religiões de matriz africana ou matrizes curriculares, como acontece na extrema-direita, com parlamentares eleitos, literalmente, para incomodar feministas e travestis, mas havia um nítido sentimento de superioridade moral e autoafirmação dependente de dicotomias muito rígidas (e muito burras).

Na verdade, os “critérios” com os quais tive contato reduziam as vidas de boa parte da população, incluindo extratos tão ou mais endinheirados, a uma espécie de existência brega ou cafona, permeada por ignorância. Eu e outros milhões fomos e continuamos sendo tratados como uma escória que compra imóveis horríveis, consome de maneira fútil e não tem um pingo de riqueza cultural. Somos uma massa de coitados que, quando conveniente, deve ser amparada por programas de vouchers como o Prouni e o Minha Casa Minha Vida e ter uma ou outra expressão cultural protegida ou envasada como algo exótico. Apenas.

Como provoquei ao criticar a discussão sobre microapartamentos, que deu origem a múltiplos textos na Folha de S.Paulo, nenhuma alternativa foi desenvolvida. O mecanismo crítico opera baseado em desumanização, desprezo e preservação de privilégios. Mais uma vez, a rinha de ricos colocou em fogo cruzado maiorias carentes de trabalho de base, tratadas como bárbaros que, com alguma sorte, contribuem para eleger progressistas.

Já agora, com os partidos mais conservadores e reacionários nadando de braçada, as mesmas figuras querem dividir a frustração com quem, apesar de supostamente ser brega e inculto, votou contrariado numa esquerda disfuncional para tentar evitar retrocessos.

É de uma audácia indescritível: tratam as massas como lixo, esperam que uma parte, sabe-se lá como, atravesse com gratidão uma muralha de contradições, votando numa esquerda que não enfrenta dramas estruturais. O plano falha e, agora, a lamúria ecoa pelos corredores podres das redes sociais. Vassalagem tem limites.

Não é maravilhoso? Quem mais parece lamentar é, justamente, a pequena elite intelectual que se vê como iluminada e cercada de bárbaros, incapaz de se enxergar como parte do problema. Um grupelho que tem arrastado partidos para uma agenda política de nicho, na qual a disputa da cidade se transforma numa grande fofoca sobre como determinados hábitos são os mais corretos, mesmo quando resulta numa cidade violenta, centros esvaziados que concentram empregos e periferias inchadas que dificilmente superarão o subdesenvolvimento.

Nós trocamos a urgência de formular outro tipo de solução habitacional, menos baseada em programas de vouchers, propriedade privada a qualquer custo, regularização fundiária de aglomerados insalubres, urbanização difusa e insustentabilidade ambiental, para focar em críticas teatrais a varandas e revestimentos. Atacamos quitinetes a partir dos medos de quem normaliza morar num sobrado a 10 minutos da Avenida Paulista, mas ignoramos a superlotação de favelas e conjuntos habitacionais que transforma 30 m² para uma pessoa solteira ou um casal numa mansão.

Sem nenhuma surpresa, não houve espaço para qualquer avanço e diferenciação. O fetiche de mercadorias muito bem conhecidas, como casarões em antigos loteamentos da City ou apartamentos assinados em Higienópolis foi e continua sendo imbatível. Não conseguimos chegar a temas como trens de alta velocidade, oferta de alimentação barata e de qualidade e complexificação produtiva.

Quem precisa de trens rápidos para atenuar subúrbios e exúrbios, trabalho bem remunerado e moradia perto do trabalho para conter periferias metropolitanas? Temos coisas mais importantes a tratar, como a demolição de uma unidade da Cultura Inglesa ou de um teatro tão esquecido, que precisou ser representado por uma imagem fraudada por inteligência artificial (e ninguém se deu conta).

É sério que o problema agora é o avanço de uma agenda ultraconservadora que se entrelaça com redes protestantes de solidariedade e disseminação de pânico moral? Não tem nada a ver com aburguesamento, racismo e arrogância no seio da esquerda, contribuindo para um vácuo que a extrema-direita tem operado para promover toda sorte de atrito?

Os vácuos continuam: teto, condução que funciona e comida no prato nunca saem de moda. Resta saber se continuaremos presos a uma espécie de maldição da Santa Cecília, como se fôssemos reféns de um centro acadêmico com sujeitos que, apesar dos cabelos brancos, se comportam como adolescentes irredutíveis.




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