Por Caio César | 14/06/2026 | 5 min.
Acredito que problematizar o uso e ocupação do solo é indispensável para que a sociedade rompa com discursos eleitoreiros e oportunistas envolvendo o transporte sobre trilhos. A natureza do transporte sobre trilhos pode ser descrita como indelével e impactante, ou seja, dependente de obras caras, demoradas, que causam grandes incômodos e transformam a paisagem de uma maneira praticamente irreversível.
A natureza do transporte sobre trilhos, entretanto, não torna a malha homogênea. A distribuição dos trilhos pelo espaço não se traduz numa mesma capacidade de acesso ou numa mesma conectividade. Não se traduz, nem mesmo, numa mesma qualidade urbanística das cercanias (ou seja, das imediações das linhas) ou de uma taxa de atividade similar (relação entre pessoas residentes e empregos gerados localmente).
Há algum tempo, tenho aproveitado minha experiência no campo do planejamento territorial, bem como meus estudos formais (dentro da universidade) e informais (fora da universidade) sobre temas pertinentes, para não reproduzir o péssimo hábito de discutir o transporte sobre trilhos como uma espécie de infraestrutura milagrosa e mística, com baixa materialidade no discurso.
Tal hábito está impregnado no jornalismo, seja o feito por veículos generalistas, seja o feito por veículos especializados. Achata-se a cobertura, comprimindo uma série de problemas, para focar apenas na dimensão da infraestrutura de transporte, como se ela “flutuasse” num plano completamente distinto.
Não poderia ser mais ilusório, ainda que talvez funcione muito bem para atrair visualizações e aumentar a receita com a exibição de anúncios pegajosos. O jornalismo termina esvaziado e com contornos propagandísticos.
Muito da cobertura de mobilidade urbana não é nada mais do que uma coleção acrítica de comunicados (ou boletins, também comumente chamados de press releases ou releases de imprensa), ou seja, informações que são fornecidas para veículos de imprensa por um determinado ator da sociedade, seja ele público ou privado. Em outras palavras, a cobertura sobre mobilidade urbana costuma ser, na verdade, mínima, quase inexistente, limitando-se ao papel de mera reprodutora de mensagens alheias, sem apurar, sem criticar e sem enriquecer as informações.
Como tenho tentado promover rompimento? Falando não só do transporte sobre trilhos, mas da cidade atendida pelo transporte sobre trilhos. Por cidade, não quero dizer município, mas espaços configurados como tal, uma vez que os trilhos atendem duas regiões metropolitanas e diferentes tipos de tecidos, independentemente do operador ou da discriminação do modo.
Falar da cidade envolve, por exemplo, consumo e habitação, além da interpretação de como a cidade funciona, por exemplo, de quais regiões concentram empregos ou estão dotadas de determinadas características (calçadas largas, praças, parques, edifícios com uso misto, entre muitas outras). É um exercício que não precisa ser exaustivo, mas que precisa começar a ser feito e integrar o senso crítico de quem se interessa por mobilidade numa das maiores aglomerações urbanas do planeta.
Como já expliquei no passado, a heterogeneidade, ao ser ignorada, pode produzir soluções ruins e contribuir para marginalizar pessoas, lugares e linhas, afetando classes baixas e classes médias. Também suspeito que contribui para que o transporte sobre trilhos seja visto como uma bala de prata capaz, tão poderosa e infalível, que não leva a grandes questionamentos ou críticas minimamente inteligentes dos projetos, o que acaba reforçando o risco de tirar do papel soluções ruins, a partir de uma lógica eleitoreira ou populista, por exemplo.
Prólogo Pequenas alterações foram realizadas para explorar possibilidades inexistentes na rede social, além disso, foram feitas pequenas alterações para adequar o conteúdo à proposta do site. Superlotação: subproduto de uma paisagem excludente Legenda: Versão sem recorte da publicação original, de 3 de março. Trem superlotado no Serviço 710 (embarque para viagem entre as estações Ipiranga e Santo André), pico vespertino. Clique para abrir e ampliar “ O problema nunca foi "gente demais". Fim de papo. Não ataque as periferias. Questione privilégios. Ninguém aqui está dissimulando. Ninguém aqui está defendendo construtora.
Há dois anos, em 2024, eu escrevia exatamente sobre isso. Desde então, nada mudou, mesmo com a crescente atuação de indivíduos e grupos que, no afã de preservar modos de vida tóxicos, envernizam discursos promotores de desigualdade e disfuncionalidade com vocabulário progressista.
Entre adultos, o transporte sobre trilhos precisa ser discutido como outros assuntos da vida adulta, como são imóveis ou veículos de quatro rodas. Aliás, se mais pessoas associassem estações do sistema metroferroviário aos preços de imóveis e refletissem sobre a trajetória das regiões nas quais estão inseridas, e, talvez, sobre a trajetória dos próprios pais ou responsáveis, as discussões seriam melhores e menos vaporosas.
É um verdadeiro tabu falar como o transporte público é usado, para além de uma visão genérica em torno de deslocamentos pendulares casa-trabalho-casa, não raramente em tom amaldiçoador. O conteúdo especializado continua sendo predominantemente especulativo e dependente de obras de expansão. Dopamina barata.
E quanto à malha que já existe? Quais territórios são atendidos, quais tipos de relações podem ser nutridas? Quantos parques podem ser acessados? Quanto custa, sem floreios, para além da tarifa, para desfrutar do melhor que o sistema de trilhos oferece?
Finalmente, tenho tentado alertar que certas coberturas, além de estarem muito longe de qualquer pretensa neutralidade, trazem, nas entrelinhas, um filtro de alguns milhões de reais em imóveis, móveis e automóveis. São coberturas que, a partir da seleção cuidadosa de personagens e seus modos de vida, num ou mais recortes bem específicos do território, dissolvem completamente quais estações foram construídas, quais relações são possíveis e como todo esse conjunto se encaixa nas regiões metropolitanas de São Paulo e de Jundiaí, servidas por mais de 300 km de trilhos.
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